(isto faz parte da cultura de dois povos, o nosso e o da Galiza)
Já aqui tinha contado o que via quando, era ainda uma criança, na terra onde nasci. Uma senhora, cega, agarrada ao braço do seu companheiro, cantava canções de faca e alguidar, do homem que trocou a mulher por uma bicicleta, de uma criança com cara de cão, da mulher que arrancou o nariz do marido pois este era velho e, na noite de casamento, em vez de aquecer a moça, ficou-se "enrodilhado" com frio, a mãe que matou os três filhos à machadada; a costureira que descobriu que o noivo a enganava e se matou no dia do casamento; a Maria da Graça que foi enganada pelo Manuel Celestino e atirou o filho recém-nascido para o telhado; o coveiro de Pínzio que desenterrava os mortos para lhes tirar a roupa. Enfim era uma "desgraçadeira" para quem os ouvia que, puxando do lenço, fungavam o nariz, limpavam os olhos marejados e era nessa altura que os folhetos com as canções, se vendiam.
Ai povo povo, que o sal das tuas lágrimas, alimentavam aquelas almas que ali desfiavam o rosário das misérias populares.
Eram todos "cegos", eram os cegos papelistas.
"Vem de muito longe a memória dos cegos papelistas que, por mercados, feiras e romarias, apregoavam casos estranhos, sucessos inauditos, virtudes hagiográficas e relatos noticiosos, às vezes prognósticos e adivinhações. (...)
Os cegos papelistas do século XVIII vendiam as histórias impressas em folhetos de papel barato, com letra miúda de má qualidade, por vezes com umas quantas imagens a alimentar o fascínio das palavras que contavam histórias em versos de pé quebrado, (...) Os cegos cantores do século XX seguiam a mesma receita, com as letras das músicas e as fotografias das estrelas do momento à mistura."(...)
[Texto de José Alberto Ferreira publicado originalmente com o CD "Canções do Ceguinho", editado em Maio de 2003]
Fica aqui um vídeo, "Casório divertido", de César Prata que em 2003 fez uma recolha destes cantares do tempo dos nossos avós e os gravou.
Fotos de ceguinhos e folhetos:
26.10.18
Cantores de rua
Todos os anos os via deambulando pela então vila de Póvoa de Varzim (cidade em 1973, através do decreto 310/73). Como era óbvio, via-os nos momentos de grande festejo na Póvoa, como era o da festa da Nª Sª de Assunção.
Ele com a viola, ela, cega, apoiava o braço direito no do homem e, na mão esquerda, levava muitas folhas bem elaboradas, com canções impressas que vendia a quem deles se abeirava para as comprar. A senhora tinha uma belíssima voz e, acompanhada à viola, cantava temas de desgraças e amores proibidos.
Era um choradinho que enternecia as almas de quem os ouvia. Paravam em locais onde houvesse muita gente, como no antigo Mercado Dr. David Alves, onde quase sempre estavam, mas também para os lados do Casino, local de referência de passagem de muitos turistas. A Póvoa nos anos 60 desenvolveu-se e já era uma vila de muito turismo, tanto pelas festas, como pelo mar.
Os poveiros são conhecidos pelos Lobos do Mar e esta era uma das canções. Ficou-me a letra na memória de tanto a ouvir cantar...
"Lobos do Mar
Numa praia de banhos, atraente,
Contente se banhava um rapazito,
Seu pai contemplara, alegremente,
A graça esfuziante do filhito.
O garoto sorria entusiasmado,
Mas nisto ouviu-se um grito lancinante,
Ele afastou se um pouco e foi levado
P'las ondas da corrente, apavorante.
Aos gritos aflitivos do pequeno
E ao ver dum pai extremoso a dor tão forte,
Um velho pescador, bravo e sereno,
Arrancou a criança ao seio da morte.
P'ra dar ao valoroso salvador,
0 pai tirou dois contos da carteira,
Mas, olhando-o de frente, o pescador
Não quis e respondeu desta maneira:
Tal dinheiro, senhor, longe de mim...
Meu nome não importa conhecer,
Porque os lobos do mar são sempre assim,
Não salvam por interesse, é por dever."
As lágrimas poveiras deslizavam pela singeleza, mas emocional letra. Os Lobos do Mar são sempre assim... rudes como o mar, mas sensíveis como crianças.
Podemos ouvir aqui este tema na voz de Frutuoso França
foto: três elementos junto ao Casino da Póvoa (anos 50), mas na minha época só vi dois.
Ele com a viola, ela, cega, apoiava o braço direito no do homem e, na mão esquerda, levava muitas folhas bem elaboradas, com canções impressas que vendia a quem deles se abeirava para as comprar. A senhora tinha uma belíssima voz e, acompanhada à viola, cantava temas de desgraças e amores proibidos.
Era um choradinho que enternecia as almas de quem os ouvia. Paravam em locais onde houvesse muita gente, como no antigo Mercado Dr. David Alves, onde quase sempre estavam, mas também para os lados do Casino, local de referência de passagem de muitos turistas. A Póvoa nos anos 60 desenvolveu-se e já era uma vila de muito turismo, tanto pelas festas, como pelo mar.
Os poveiros são conhecidos pelos Lobos do Mar e esta era uma das canções. Ficou-me a letra na memória de tanto a ouvir cantar...
"Lobos do Mar
Numa praia de banhos, atraente,
Contente se banhava um rapazito,
Seu pai contemplara, alegremente,
A graça esfuziante do filhito.
O garoto sorria entusiasmado,
Mas nisto ouviu-se um grito lancinante,
Ele afastou se um pouco e foi levado
P'las ondas da corrente, apavorante.
Aos gritos aflitivos do pequeno
E ao ver dum pai extremoso a dor tão forte,
Um velho pescador, bravo e sereno,
Arrancou a criança ao seio da morte.
P'ra dar ao valoroso salvador,
0 pai tirou dois contos da carteira,
Mas, olhando-o de frente, o pescador
Não quis e respondeu desta maneira:
Tal dinheiro, senhor, longe de mim...
Meu nome não importa conhecer,
Porque os lobos do mar são sempre assim,
Não salvam por interesse, é por dever."
As lágrimas poveiras deslizavam pela singeleza, mas emocional letra. Os Lobos do Mar são sempre assim... rudes como o mar, mas sensíveis como crianças.
Podemos ouvir aqui este tema na voz de Frutuoso França
foto: três elementos junto ao Casino da Póvoa (anos 50), mas na minha época só vi dois.
24.10.18
Alma Poveira
Naufrágio, 27 de fevereiro de 1892
(morreram, nesta tragédia, 105 pescadores)
– ‘Não tentes o socorro, compadre, que morreis todos. Deus te guie e leve a salvamento! Leva o último adeus para as nossas mulheres e nossos filhos! Até à eternidade, compadre!’
O velho mestre João Praga levantou a mão num gesto de despedida mas não respondeu. Duas lágrimas rolaram-lhe pela face – mas ninguém mais lhe ouviu uma palavra. Leme bem firme, todo o dia e toda a noite até ao alvorecer do dia seguinte, em que entrou em Vila Garcia, na Espanha. Salvou a companha. Dois dias depois chegava à Póvoa, de comboio. Após a tragédia nunca mais comeu, nunca mais falou. Oito dias depois da sua chegada – morria! A grande dor de não poder salvar – matou-o!...”
imagem: mulheres poveiras esperando os barcos
(morreram, nesta tragédia, 105 pescadores)
– ‘Não tentes o socorro, compadre, que morreis todos. Deus te guie e leve a salvamento! Leva o último adeus para as nossas mulheres e nossos filhos! Até à eternidade, compadre!’
O velho mestre João Praga levantou a mão num gesto de despedida mas não respondeu. Duas lágrimas rolaram-lhe pela face – mas ninguém mais lhe ouviu uma palavra. Leme bem firme, todo o dia e toda a noite até ao alvorecer do dia seguinte, em que entrou em Vila Garcia, na Espanha. Salvou a companha. Dois dias depois chegava à Póvoa, de comboio. Após a tragédia nunca mais comeu, nunca mais falou. Oito dias depois da sua chegada – morria! A grande dor de não poder salvar – matou-o!...”
imagem: mulheres poveiras esperando os barcos
28.9.18
Ó Laranja
A pedido de um Poveiro emigrado em França, tudo fiz para adquirir este disco pois nele constava o tema que esse nosso emigrante desejava, a "Sarrasquinha".
Para se ouvir os temas individualizados, basta clicar no "tempo" que se encontra à frente de cada um dos títulos.
Abraço para todos os Poveiros, que se encontram longe de sua terra natal, a nossa Póvoa de Varzim.
Para se ouvir os temas individualizados, basta clicar no "tempo" que se encontra à frente de cada um dos títulos.
Abraço para todos os Poveiros, que se encontram longe de sua terra natal, a nossa Póvoa de Varzim.
4.5.18
A nossa Câmara Municipal
Da autoria do engenheiro francês Reinaldo Oudinot, "um dos edifícios que logo captivam a attenção do viajante, ao entrar na villa, é, por sem dúvida, o dos paços do concelho. Está situado em uma bella praça, denominada do Almada, no centro da villa, e tem magestosa apparencia", conforme era descrita em 1868.
A azulejaria que lá vemos foi pela acção de Rocha Peixoto e patrocínio da família Bonitos de Amorim e da autoria do pintor belga Joseph Bialman.
Quando era garoto a Praça do Almada não é como hoje a vemos, mas muito aproximada. Jardim sempre existiu e já é do meu tempo a estátua a Eça de Queirós, ou seja foi lá colocada no ano que nasci.
Por ali se brincava e muito ia até à "cangosta" perto da Câmara, que dava acesso ao quartel, para lá ir pedir o famoso casqueiro, não que tivesse necessidade disso, mas porque o pão era mesmo delicioso.
Quando moramos na Fúnebre, essa "cangosta" era atravessada frequentemente pois a traseiras da Fúnebre dava para ela e algumas histórias irei contar sobre essa minha/nossa passagem por esse local.
A cangosta (do lado do quartel) que na época era em terra.
A nossa Câmara é linda, encontra-se classificada pelo IPPAR como Imóvel de Interesse Público desde 1974 e não sei se todos os presidentes que por lá passaram a mereceram, mas isso são outros contos que para aqui não interessam.
A azulejaria que lá vemos foi pela acção de Rocha Peixoto e patrocínio da família Bonitos de Amorim e da autoria do pintor belga Joseph Bialman.
Quando era garoto a Praça do Almada não é como hoje a vemos, mas muito aproximada. Jardim sempre existiu e já é do meu tempo a estátua a Eça de Queirós, ou seja foi lá colocada no ano que nasci.
Por ali se brincava e muito ia até à "cangosta" perto da Câmara, que dava acesso ao quartel, para lá ir pedir o famoso casqueiro, não que tivesse necessidade disso, mas porque o pão era mesmo delicioso.
Quando moramos na Fúnebre, essa "cangosta" era atravessada frequentemente pois a traseiras da Fúnebre dava para ela e algumas histórias irei contar sobre essa minha/nossa passagem por esse local.
A nossa Câmara é linda, encontra-se classificada pelo IPPAR como Imóvel de Interesse Público desde 1974 e não sei se todos os presidentes que por lá passaram a mereceram, mas isso são outros contos que para aqui não interessam.
Subscrever:
Mensagens (Atom)










