22.9.17

O Mar aos Poveiros

“O mar aos poveiros
Embalou-lhes na espuma a alegre e doce infância.
E rimou-lhes canções d'amor na mocidade,
Deu-lhes na pesca - a vida - e aos filhos a abundância,
Deu-lhes, mais tarde, a morte, e aos filhos a orfandade"

Conde de Sabugosa

Anos 60

Havia borrasca na enseada. O mar encapelado, galgava o porto de pesca, passava a lota e inundava as ruas que estavam no seu caminho, fazendo da Rua 31 de janeiro o seu leito.

Quando mar estava tempestuoso, muito do que nele estava nas entranhas era "vomitado" como se Cronos ali estivesse, vomitando os seus filhos que o mar tinha devorado.

À areia vinha parar tudo, desde bocados dos velhos barcos que ali tinham afundado, como outros objetos, que o mar tumultuoso revolvia nas profundezas, e lançava para fora das suas gárgulas escancaradas.

Sei que me encontrava ali mais o meu irmão mais velho. Outros garotos por ali andavam, vasculhando o areal à procura de moedas ou algo de valor, que as ondas alternosas ali tivessem depositado.

O som do mar bravio era cortado pelos gritos de desespero das pescadeiras poveiras que olhavam o mar onde as pequenas traineiras tentavam a todo o custo entrar na barra.

Quando hoje olho para o mesmo local, o mar bonançoso, sei que muitos de agora, não acreditam que ali houve desespero e morte.

Era uma aflição. Impotentes perante aquela tempestade medonha que se abatera sobre os barcos dos seus “hómes”, rezavam aos santos protetores que os trouxessem sãos e salvos.

O salva-vidas faz-se ao mar tentando resgatar dele, aqueles que devido à força das ondas eram tragados dos pequenos barcos virados.

O mar trazia para a areia não só pedaços de madeira dos barcos ali sepultados, como dos que acabavam de soçobrar.

Saímos dali, não havia condições para ali continuarmos.

25.8.17

A Lota

"Manhã. Redemoinho de névoa lá no largo; vão chegar as lanchas e os batéis. Uns atrás dos outros à bolina já os distingo muito ao longe. No areal todo de oiro secam redes encascadas, e entre os batéis varados formam-se grupos de mulheres que os esperam. Outras correm. Puxam pelos cabos das lanchas como homens ou carregam a caça que sai do cavername a escorrer. Dois, três barcos já na praia...(...) Mais batéis: é a força da sardinha despejada no areal. Mulheres acodem, o movimento aumenta e os gritos, os gestos, as atitudes imprevistas. Com os dedos metidos nas guelras algumas arrastam os cações sarapintados, as raias espalmadas, os congros ferozes, com a cabeça aberta pelo machado para não morderem a mão que os apanha. (...) – Treze vinténs! catorze vinténs! – o leilão.

Cheira a mar, a peixe e a fartum, e as mulheres curvam-se sobre a pesca e regateiam-na, enquanto em baixo os barcos despejam mais peixe vivo, toninhas, gorazes e a sardinha que começa a alastrar de prata todo o vasto areal. Duas mulheres, de perna, nua e saia arregaçada até ao joelho, engancharam um croque na boca de um peixe-cão e arrastam-no a custo para cima."

Os Pescadores - Raúl Brandão

Era assim no tempo de Raúl Brandão. A venda fazia-se diretamente quando o peixe era descarregado no areal da praia do peixe.

No meu tempo havia já a lota. Os pregões «peixe fresquinhoooo, peixe fresquinhoooo.... » das nossas pescadeiras na venda do pescado, ecoavam por aquele espaço junto à Fortaleza onde uma voz tentava falar mais alto que a outra, mas notava-se uma certa matreirice e um sorriso amigável quando conseguia suplantar nessa venda a amiga adversária.

No fim estavam todas de bem e não me lembro de ver ali, uma zanga séria entre as nossas poveiras.

Era nessa lota que a minha avó abastecia. De canastra à cabeça apanhava a camioneta até Gondifelos, depois ia vender de porta a porta, nem o padre escapava. (1)

Na vinda, trazia a canastra cheia de pão e verduras, quando vinha em excesso, distribuía na "Ilha do Padre" onde morava.

(1) - Chamavam-se "repeteiras" as mulheres que iam vender o peixe às freguesias vizinhas. Quase sempre eram mulheres dos pescadores, o que não era o caso do meu avô. Na minha família não houve ninguém que fosse pescador a não ser por casamento.


P.S. - Agradeço à minha irmã mais velha muito das recordações que aqui escrevo.

9.8.17

As minhas Tias

Três poveirinhas vestidas à minhota (foto de estúdio). Anos 40.

Tia Mininha;Tia Generosa e Tia Glória

Bisavô Francisco

Meu bisavô Francisco (pai da minha Avó Arminda).

5.8.17

A Póvoa de Hoje!

"Na orla da angra ou enseada de Varzim vive o Poveiro, tipo de pescador original e inconfundível na beira-mar portuguesa... Forte, rude, vive do mar e para o mar."

Santos Graça

Poderia começar pela escrita deste ilustre poveiro, a demanda do povo a que pertenço por terras de Varazim.

Dizem que o nosso povo teve origens num povo nórdico, viking, mas não, antes dos vikings chegarem, já outros povos habitavam esta orla costeira.

Segundo o estudo feito pelo capitão Fonseca Cardoso «O Estudo Antropológico do Poveiro», o Poveiro descende da raça semita de origem cananeana, que viveu nas primeiras idades do Egipto, que fundou Tyro, Sidon, Aratos, Gavira, Carthago... enfim, somos aqueles que por herança nasce, vive e morre pescador.

Mas já não é assim. O Poveiro já não nasce nem morre pescador. O Pescador foi “empurrado” para as Caxinas e, na cidade cosmopolita sobranceira, resta somente uma homenagem àquele que tanto deu de si para salvar os outros... «O Cego do Maio».

A Póvoa do meu tempo modernizou-se, tornou-se uma cidade bonita. Oito anos depois, voltei a vê-la. Admirei-me de não encontrar o bulício de uma cidade que me habituou quando lá ia. O Passeio Alegre (Marginal), a Junqueira local tradicionalmente ligado ao comércio e ponto de passagem onde se encontrava a família, estavam quase desertas. Efeitos da crise ou do vento norte que se fazia sentir.

Mas olho e vem-me sempre à lembrança os bons momentos de menino que ali passei. Era uma terra de pescadores, agora é uma cidade virada para o futuro.

Que continue mas sem esquecer que, um dia, famílias de poveirinhos pela graça de Deus, aportou àquela enseada e foi ali que a Póvoa começou.

12.7.17

Mário Carcereiro

Disse o meu tio António da Conceição (falecido recentemente) ao jornal Correio do Porto:

“Casei em Fevereiro de 1947, e a 10 de Abril fundamos a Banda da Póvoa, fruto de uma fusão entre as bandas "Os Passarinhos" e "Os Malhados". A ideia partiu do Mário Carcereiro. Embora eu tivesse aprendido a tocar Barítono nos Malhados, ajudei-o a fazer a fusão. Houve diversas reuniões e zangas entre as famílias, mas o objectivo foi conseguido. Integrei a primeira direcção presidida pelo Mário Carcereiro. Quando ele faleceu houve eleições e assumi a presidência."

Quem era então Mário Carcereiro?

Nos livros que tenho do Ilustre escritor José de Azevedo, ofertas do meu irmão Josué Lima, pela 2ª vez reparo que um nome que muito me diz, tem surgido em alguns temas.

Falo do meu padrinho de batismo Mário Carcereiro (por isso me chamo e com muito gosto de Mário também).

Não sei muito dele. Saí muito novo de Portugal, as poucas recordações que tenho era quando cachopo ia na Páscoa, ter com ele buscar o pão de ló e pouco mais.

Neste livro que estou a ler "A graça que a Póvoa tem", refere José Azevedo que o meu padrinho era presidente da "Banda dos Passarinhos" (Sociedade Musical da Banda Povoense Concelhia) que rivalizava com a "Banda dos Malhados" (Banda Musical a Poveira).

Gostei de saber um pouco mais sobre o Mário Carcereiro que segundo penso por ouvir há muitos anos dizer, era carcereiro da prisão da Póvoa (ou talvez não, que as alcunhas surgem sabemos lá muitas vezes a razão).

Era muito amigo do meu avô Benjamim Lopes da Conceição, sapateiro no antigo mercado David Alves, perto do torreão que dava para a bomba de gasolina e do meu pai Alfredo Lima.

Nestas duas fotos está o meu padrinho que nunca mais o vi. Ficou o teu nome em mim, Obrigado!

Fotos:

1ª - O meu tio António
2ª - O meu padrinho é o 1º à esquerda ao lado da tarjeta (o meu pai de gravata e casaco claro, está do mesmo lado) tirada no Bussaco (na época era assim escrito o Buçaco de hoje) em 16.06.52. Eu iria nascer quase dois meses depois.
3ª - Sem data (mas deve ser do mesmo ano), o meu padrinho ao centro ao lado do meu avô, à direita. O meu pai está atrás.

As duas sereias

Uma das coisas que me agradou quando comecei a ver a minha Póvoa com olhos de ver, foi esta frontaria sita na Junqueira. Em alto-relevo, estas duas figuras representando duas sereias e como sereias que são estão semi-nuas o que para a época foi um escândalo (e para algumas almas ainda hoje o é), onde se chegou ao ponto do Prior da Matriz proibir a passagem da procissão pela Junqueira pois a casa das duas sereias era considerada uma provocação demoníaca e para que os seus figurantes não caíssem na ratoeira do Demónio ou tentação do pecado, é sem dúvida, uma frontaria a ver para quem pela Junqueira passeia, pela qualidade escultórica que emana daquelas duas figuras.

Obra do escultor portuense Sousa Caldas, dentro da Arte Nova (a Arte Nova foi tardia e de pouca duração em Portugal. Teve início por volta do ano de 1905 e terminou 15 anos mais tarde em 1920) é sem dúvida um ex-libris da nossa cidade, uma pela beleza das figuras, outra porque está no centro o nosso brasão (expressão burguesa do Brasão da Póvoa de Varzim conforme consta na wikipédia), não deixa de ser bonito e bem enquadrada entre as duas sereias.

Segundo o que li no livro "No Reino da Póvoa" de José de Azevedo (um livro a ler tal como os outros deste autor), este edifício foi mandado construir pela Tia Constança do Agulha com o dinheiro enviado pelo marido Tone Maravalhas, emigrado no Brasil, em Manaus. Depois do seu falecimento foi o seu filho Admário Ferreira (poeta, publicista e director do semanário local "O Banhista" e "O Banhista Informador") que ali abriu a "Livraria" Académica.

As duas fotos representam o passado e o presente deste local no que concerne à beleza das imagens.

Fontes:

- wikipédia
- Revista "A Póvoa de Varzim - Repositório Digital"
- Livro "No Reino da Póvoa" de José de Azevedo de onde foi retirada a imagem antiga do local.

Foto atual: Mário Lima