11.7.17

"UM CONTO DE DUAS CIDADES"

No dia 31 de maio de 2017, no Cinema Garrett, estreou-se o filme de Steve Harrison e Morag Brennan "UM CONTO DE DUAS CIDADES".
Para quem não o viu, que foi o meu caso, aqui fica a apresentação do mesmo e a sua sinopse.

Filme "Um Conto de Duas Cidades",
de Steve Harrison e Morag Brennan

Sinopse:

“Começando com a famosa fotografia de Maria do Alívio, de 16 anos, a andar descalça pela Rua das Lavadeiras, o filme conta a história de duas Póvoas de Varzim muito diferentes.
- a comunidade piscatória e a realidade brutal de um modo de vida tradicional – a coragem, carácter e solidariedade que ajudaram o povo a sobreviver.
- a cidade turística – os indivíduos cuja energia e iniciativa transformaram este trecho de 1 km de areia numa meca para milhões de turistas.
Não só se obtém um vislumbre histórico de um mundo que agora está quase esquecido, como também se poderá ver uma parte da história portuguesa que alguns desejam esquecer: a vida sob o poder de Dr. Salazar.
Primeiro há o relacionamento especial que o ditador teve com a comunidade de pescadores e a cidade turística; e depois poderá ver-se então como a Póvoa foi o cenário dramático para o confronto entre o regime de Dr. Salazar e o homem que jurou derrubá-lo. Um Conto de Duas Cidades apresenta-nos duas visões de uma mesma cidade, relatadas a partir de entrevistas a testemunhas oculares, às vezes hilariantes e outras vezes dolorosas, mas sempre inspiradoras e reveladoras.”

Curiosamente o título é o mesmo de um romance de Charles Dickens (Tale of Two Cities - Uma história em duas cidades ou Um Conto de Duas Cidades).

10.9.13

Um Largo com "estória"

Vivia na Rua Dr. António Silveira na "Ilha do Padre" na casa do meu avô Benjamim, sapateiro no antigo mercado Dr. David Alves.

2ª porta à esquerda depois do torreão

Na época (1961) este largo não era assim. Conheci-o como Largo do Correio e aí estacionavam as camionetas de excursão dos alunos das escolas.

"Largo do Correio" hoje "Elísio da Nova"

A minha escola primária era na Tenente Valadim. Hoje velha, decadente mas com o pau da bandeira bem firme, espera a machadada do tempo para lhe afogar os risos das crianças que ecoavam já nas suas velhas escadas.

Ali aprendi as primeiras letras de uma professora que fazia chegar a caninha-da-índia ou a palmatória ao mais afoito que dela tivesse pejo em contrariar ou, que os trabalhos não tivessem sido feitos na sebenta ou na lousa onde o pau de giz, transformava riscos em palavras.

A minha professora, Dª Maria Luísa

Uma excursão de alunos até Braga. Custava um dinheirão. Mas pataca aqui pataca ali, lá consegui reunir para a viagem. A minha avó Arminda prepara-me a lancheira num cesto de vime. Pataniscas, pão e o famoso "pirolito" e lá vamos.

Ainda tenho na memória essa viagem por ter sido a única. O local onde lanchámos, entre o arvoredo era lindíssimo.
As nossas brincadeiras se manifestaram ali como pequenos pássaros saídos da gaiola. Até a professora rezingona tinha mudado de expressão, sendo mais cândida e alinhando com estes pequenos patifes.

De regresso, ao nosso lado aparece o carro do distinto avogado Fernando, morador na Vila Aurora, onde eu brincava com o seu filho Fernando de seu nome, hoje tal como o pai, também advogado da nossa praça.

Tinha-lhe chegado aos ouvidos que a nossa camioneta tinha caído na velha ponte romana de Ponte de Lima. Como possuidor de um dos poucos carros existente na época, apressou-se em saber se tal correspondia à verdade, Felizmente não!

Vai ele de regresso à Póvoa dando a boa nova a quem dela aguardava com ansiedade.

Camioneta chegada à Póvoa, a este Largo. Dezenas de pessoas aguardavam-nos. Mães, tias, avós, quase toda a comunidade poveira ali estava. Embora soubessem, queriam ver com os seus olhos os seus pequenitos, pois se a notícia era boa, melhor seria saber que, por vontade de Deus, tínhamos saído de um acidente que não tinha acontecido connosco (houve realmente um acidente mas foi com alunos de outra escola, de onde já não me lembro).

... E saídos da camioneta era um abraçar, os ais de satisfação de quem nos apertava ao peito, de lágrimas sentidas e não fugidias. Nós, pequenos lobinhos do mar, sentimos ali que o sentir da nossa gente de quem de nós gosta, vale mais que todos os "pirolitos" do mundo.
A famosa bebida da época "O Pirolito"

10.5.12

Xico Preu

Ao pesquisar por um nome (Xico Preu) que faz parte das minhas recordações de menino (referenciado no tema "Ilha do Padre") deparo-me com esta foto dos "Leões da Lapa Futebol Clube" e um Xico Preu, guarda-redes da equipa.

Em cima: Tone Prior, João Nunes, Alexandre, Nel Rajão, Tone Vinagre, Zé Moreira, Xico Preu
em baixo: Zé Graça, Toninho, Manuelinho, Vitorino Graça, Oliveiros

Será este o tal Xico Preu pescador, que me levava, mais os meus irmãos, até à traineira? Seria bom saber que era este o amigo que nunca mais esqueci.

Citando

"Na Rua Cego de Maio, saltávamos nas fogueiras dos Santos Populares, e assávamos as batatas. Era dali que partíamos para junto da lota e ouvíamos os pregões das pescadeiras na venda do peixe. Era dali que íamos até à praia para um mergulho ou ter com o amigo Xico Preu que nos levava até ao seu barco."

Um dia, quando nos foi buscar ao cais no seu bote, ao descer-nos pela escada de ferro do cais de pesca cheia de ferrugem e partida (nós éramos uns miúdos ainda), foi numa dessas pontas soltas que o Xico, desequilibrando-se, fez um rasgo profundo nas costas.

Se algum de vós o conhecer e caso ainda esteja entre nós, um Grande Abraço meu.

(claro que ele já não se lembrará de mim, mas aqui fica a recordação)

29.3.12

O Meu Olhar

Gravação feita por mim em 1996 na altura das Festas da Nª Senhora da Assunção.

Vários aspetos da nossa cidade dessa época, com a procissão e a participação de um Rancho (Tricanas da Lapa?) no largo António Nobre (quantos 21 anos depois estarão ligados ao mesmo?).

Neste vídeo está a minha saudosa mãe Aurora e os meus filhos ainda pequenos (já nascidos em Lisboa mas todos batizados na Póvoa onde eu também fui batizado, na Matriz. Poveiro é assim, as raízes não se podem perder).

25.2.12

A Ronca

A ronca da Póvoa de Varzim faz parte do meu imaginário. Quantas vezes a ouvi no Bairro Sul, na Rua da Cordoaria em que em pequeno vivi.

O seu som ecoava pela noite fora ajudando as traineiras a fazer-se ao porto de abrigo ou quando o nevoeiro traiçoeiro limitava os olhares dos bravos Lobos-do-Mar.

Ali, nas traseiras da Igreja da Lapa, a ronca na velha casa junto ao farol da Igreja, cumpria a sua função.

A Casa da Ronca. Foto: Pedaços de um século Poveiro

Muitos anos passados voltei à Póvoa e um velho som se fez ouvir. A Ronca continuava ‘viva’. Esse som, que nunca o esqueci, fez-me recordar esses tempos de menino. Era verão, o nevoeiro fazia-se sentir e a ronca ecoava no meu espírito, no espírito de quem muito novo rumou a outras paragens, mas que nunca se esqueceu dos sons que moldaram a sua alma poveira.

P.S. - Os meus agradecimentos a Joaquim Pinto que gravou o som da ronca e fez este vídeo, para eu o colocar neste meu blog à Povoa dedicado.