18.3.09

Aver-O-Mar

Dedico este tema ao amigo Manuel Lopes de Aver-O-Mar

  Já aqui escrevi sobre a minha Escola Primária sita na Rua Tenente Valadim. Hoje não é mais do que uma sombra daquilo que foi. Às gargalhadas das crianças que lá aprenderam responde o silêncio dos fantasmas que lá vagueiam.


  Excepto do amigo Fernando que morava na “Vila Aurora”, não me lembro de mais nenhum colega que comigo andou nessa escola. Sei que um deles era de Aver-o-Mar.


  Um dia fui até lá convidado pelos pais para almoçar em casa deles. Foi a primeira vez que andei de carroça. Os pais não estavam ligados ao mar mas sim à agricultura. Isso porque as memórias que tenho era de uma casa bem afastada do mar e de ver campos lavrados.


  No antigamente Aver-o-Mar ficava “distante” da Póvoa. Os trajectos eram feitos de carroça ou a pé e parecia que o perto era longe. Hoje, com o crescimento do Bairro Norte, com a população que não dispensa um passeio pela Marginal até a Aver-o-Mar, o longe tornou-se perto.

  Abonemar foi povoado por D. Lourenço Alves da Cunha e seus descendentes.

  O que nunca me esqueci foi daquelas mulheres apanharem o sargaço mesmo com o mar revolto. Depois colocavam o sargaço em medas para secarem que, depois de secas, eram vendidos para adubo dos campos (diziam que a melhor cebola e batata da região eram de Aver-o-Mar).

  Neste meus temas dedicados à Póvoa já falei da Capela de S. André e da lenda que lhe está atribuída. Outro local de culto é a Igreja de Nª Sª das Neves, havendo já uma capelinha à Santa dedicada, no séc.XV.



  O Conjunto Típico Ala-Arriba, é a uma das referência dos cantares da gente de Aver-o-Mar.


Clicar na imagem para ligação à página do “Conjunto Ala-Arriba”

  Outra referência é o seu Rancho Folclórico fundado em 13 de Novembro de 1988.


Clicar na imagem

  O Grupo Cultural e Recreativo de Aver-o-Mar, tendo sido um dos fundadores o meu amigo Manuel Lopes

Actuação do G.C.R., vocalista Manuel Lopes - 1983 no antigo Salão Paroquial


Aqui com o Rancho Poveiro - 1983
  O Grupo Teatral do G.C. e Recreativo.




 ... e nestas fotos, com o Grupo de Teatro - A primeira foto é de 1974, as seguintes de 1983 (parece que neste momento não há actividade cultural digna desse nome. Se assim é, há que de novo lançar as redes e fazer de Aver-o-Mar um local onde a cultura seja uma realidade.)

  Foi em Aver-o-Mar que passei, num Restaurante junto à praia, um dos melhores aniversários da minha vida.

O meu agradecimento ao Manuel Lopes pelo envio das fotos, músicas, as letras das canções e demais apontamentos sobre a vida cultural de Aver-o-Mar.

6.1.09

Cantigas ao Menino

  Mais um Natal passado. Não à moda da minha Póvoa antiga, sentados no chão, mas sempre houve alguma coisa a recordar os tempos idos.

  Aqui está o “benjamim” da família aguardando que o pessoal se sentasse para se lançar ao bacalhau!


  Depois o jogo tradicional que não podia faltar, o quino (loto).


  Enquanto isso, na cozinha já o bacalhau estava a ser desfeito para a roupa-velha para ser comido no dia seguinte e os sapatos a serem colocados para a chegada do Menino Jesus.


  O abrir das prendas...



  ... E assim se passou mais um Natal.

  Como referi no tema anterior, os grupos de rapazes quando batiam à porta na noite de Consoada e à pergunta de um “Vai ou não vai”, a um “Vai” do dono da casa, eles entoavam loas ao Menino. Eis aqui mais algumas enviadas pelo meu irmão e pelo Manuel Lopes.

“ Ó da casa, nobre gente
Escutai um bocadinho
Uma cantiga bonita,
Que se canta ao Deus Menino

“ O Patrão desta casa,
Raminho de salsa crua,
Quando chega à janela
“Alumeia” toda a rua.

Era uma cabana velha,
De penhascos naturais,
Entrou lá Nossa Senhora,
São José e ninguém mais

A Virgem logo sentiu,
O seu parto milagroso,
Chamando com meiga voz,
- Vem cá meigo esposo!

Nasceu o Menino Deus,
Com prazer e alegria,
Ficando resplandecente,
Sua mãe, Virgem Maria !


 Se houvesse contrapartida do dono da casa logo o pessoal cantava não só as quadras no tema anterior descritas como:

“Viva o Senhor desta casa,
Casaquinho de veludo.
Meta a mão no seu bolsinho,
E bote p’ra cá um escudo.

Ó patrão desta casa,
Vá dar volta à salgadeira,
Vá ver se encontra toucinho,
Ou bocado de orelheira.

Se a criada não quiser ir,
Dê-lhe”c’um” pau “inté cair!
Se a faca não quiser cortar
Dê-lhe um fio no alguidar!


Fonte: http://varziano.blogs.sapo.pt/3886.html

  Do Manuel Lopes recebi estas quadras. Naturalmente que muitas das anteriores se entrecruzam com estas ou divergem num ponto ou noutro. Era assim e sempre foi assim. Pegava-se num mote e ia-se por ali sem olhar a uma ordem préconcebida. Cantava-se e alegrava-se as noites com estas "Cantigas ao Menino".


“DESCALCINHOS PELA LAMA”

Lá lá lá lá lá lá lá lá
Lá lá lá lá (bis)

Descalcinhos pela lama
Vamos todos a Belém
Adorar o Deus Menino
Que Nossa Senhora tem

Coro

Já é nascido o Deus Menino
Nós entoemos o nosso hino (bis)

As Janeiras não se cantam
Nem aos reis nem aos fidalgos
Canta-se aos lavradores
Que dão tijelas de caldo

Não queremos pão caldo
Que não queremos comer
Queremos chouriço, ou carne
E vinho para beber


“VIMOS DAR AS BOAS FESTAS”

Coro

Nós somos poveiros da Póvoa do Mar
E as Boas-Festas nós vimos dar
Dar as Boas-Festas alegres, ditosas
Menino Jesus nasceu entre rosas
……nasceu entre rosas

Ó senhor patrão da casa
Onde põe o seu chapéu
Ponha-o no meio da sala
Parece um anjo do céu

Viva a dona da casa
Raminho de salsa crua
Quando vem ao seu postigo
ilumina toda a rua



“ Pastores”

Ó da casa, nobre gente
Escutai um bocadinho
Uma cantiga bonita
Que se canta ao Deus menino

Coro
Pastores, pastores
Vamos todos a Belém
Adorar o Deus Menino
Que nossa Senhora tem (bis)

Ó senhor patrão da casa
Faz favor de desculpar
Mande-nos dar a esmola
Que temos muito que andar

Ó senhor patrão da casa
Dê a volta à salgadeira
E mande pelos seus criados
Um bocado de orelheira



Ao meu irmão e ao Manuel Lopes aquele abraço!

6.12.08

Descalcinhos pela lama!...

  Lembro-me pouco dos dias de Natal passados na Póvoa. Sei que íamos à cangosta que ligava a Rua das Lavadeiras à Rua Rocha Peixoto, ficava precisamente atrás da Fúnebre onde moramos, recolher o musgo no muro da quinta para o presépio.

  Na Rua da Cordoaria, onde também moramos, conhecida pela Rua do “Cu Tapado” por não ter saída (hoje está aberta e faz ligação com o Bairro dos Pescadores), o musgo era recolhido da parede que tapava a rua ou íamos até às pedreiras.

  O Natal que mais me lembro foi na casa dos meus Avós na Rua António Silveira.

  O presépio era feito com os pastorinhos que, não sei como, nos vinha parar às mãos depois de ultrapassado o gradeamento do velho “Mercado David Alves”. As cestas de verga das vendeiras ficavam um pouco mais leves mas era por uma boa causa.


  Sentados no chão da entrada com uma toalha em cima de um cobertor, ali era comido o bacalhau, com batatinhas e couves a acompanhar, regadas com molho fervido, depois vinham as rabanadas de vinho, a aletria (eu era um “doido” por aletria), os figos, as nozes, os pinhões e as castanhas.


  Tudo que tinha que ser partido era partido com o que se tivesse à mão, ou com os socos (sandália de madeira), martelo, como o meu avô era sapateiro lá tinha que ter uma forma em ferro (tripé com forma que entrava dentro do calçado, onde se faziam os concertos, em cima dos joelhos), para se colocar as nozes e avelãs e zás!.. Lá ia martelada!


  Cortava-se o Bolo-Rei e era uma festa para quem apanhava o brinde. Quem apanhasse a fava já sabia que no ano seguinte seria ele pagar o Bolo-Rei. Nessa altura não havia a preocupação das crianças engolirem o brinde ou a fava (quando tínhamos brindes iguais, trocávamos por outros com os amigos). Hoje, as crianças estão superprotegidas e até esse prazer lhes retiraram.


  Depois com os pinhões jogávamos ao “Rapa”, pião com quatro faces, cada uma delas tinha uma letra: R (rapa), T (tira), P (põe) e D (deixa).


  Cada jogador colocava uma quantidade definida de pinhões e rodava-se o pião. Se saísse a letra R para cima, o jogador rapava (recolhia) os pinhões todos, se fosse o T tirava tantos pinhões quantos tinha colocado, com o P colocava tantos pinhões quantos tinha colocado de inicio, se era o D tinha que deixar tudo com estava.

  Mas o jogo que sempre me lembro de termos jogado, tanto na Póvoa como em Luanda, era ao Jogo do "Quino" (Loto). Ou a tostão ou a pinhão quando se fazia linha (quinar) era um recolher do monte que estava sempre dentro da caixa do jogo. Tinha-se sempre que conferir não fosse o que quinava ser duro de ouvido e marcar a mais um nº que não tinha saído. A última tirada era cartão cheio e o dinheiro ou o que fosse a dobrar. Eram horas a jogar ao "Quino".



  E assim se passava na maior das alegrias a Ceia de Natal. Cá fora, noite adentro, ouviam-se ferrinhos, rélas (reco-reco), castanholas, testos (tampas de panelas),... O que era aquilo? Eram grupos de rapazes que vinham de porta em porta cantar as “Cantigas ao Menino”:

«Descalcinhos pela lama
Vamos todos a Belém
Adorar o Deus Menino
Que Nossa Senhora tem.

Já está nascido
Já por nascer
Nossa Senhora
Nos pode valer»



... E mais algumas que não me lembro, e em cada porta onde paravam perguntavam:

«Ó da casa?! Vai ou não vai?»


  O meu avô dizia: - «Vai» - e ouvia-se logo cá fora o pessoal a bater nos ferrinhos e demais “instrumentos”. Abria-se a porta e oferecia-lhes nozes, pinhões, castanhas que era o que havia. Dinheiro como não abundava se se desse algum era uma festa, mas com ou sem dinheiro cantavam:

«Esta casa é alta, alta
Moradia para o nascente
Os senhores que moram dentro
São filhos de boa gente


Refrão (bis)

Glória no Céu e na Terra também
Já nasceu o Deus Menino
Filho da Virgem Mãe»


... E passavam à porta seguinte!

  Se o dono da casa nada dissesse, o grupo seguia sem em antes lhe cantar:

«Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto


... E para reforçar ainda mais o remoque!

Esta casa cheira a breu
Aqui mora algum judeu


e mais esta...

Esta casa é tão alta,
É forrada a papelão!
O senhor que nela mora,
É um grande comilão!


... E seguiam caminho terminando com:

Refrão (bis)

Glória no Céu e na Terra também
Já nasceu o Deus Menino
Filho da Virgem Mãe»


  Depois do Rapa, ou do Quino, nós, os mais miúdos, íamos dormir, mas dormíamos desassossegados pois queríamos que chegasse depressa a manhã para ver os brinquedos que estavam no sapatinho. Fosse um carro ou um avião de folheta, umas castanhas, nozes ou outra guloseima já ficávamos satisfeitos, o Menino Jesus não se tinha esquecido de nós.

  Hoje, na Consoada, à meia-noite, já está toda a garotada há espera da prenda. O Menino Jesus deu lugar ao Pai-Natal e assim o mercantilismo veio substituir o verdadeiro espirito natalício do meu tempo.

  No dia seguinte lá vinha a roupa-velha, que mais não era que os restos da Ceia anterior, tudo desfiadinho e regadinho com o molho fervido.


  Foi o último Natal, enquanto crianças, passado na Póvoa. No mês de Fevereiro do ano seguinte, três rapazes e uma rapariga (eu, os meus dois irmãos e a minha irmã mais velha) partíamos no barco “Quanza” rumo a Luanda, tinha eu nove anos!

  Nunca mais voltamos a ver os nossos Avós com vida. Mas esse último Natal ficou guardado na minha memória para o sempre!

P.S. - Os "Cantares" que aqui coloquei podem não serem estas as palavras exactas, mas passados tantos anos é-me impossível lembrar-me delas como eram. Pesquisei mas não vi referências nenhumas acerca destes «Cantares de Menino» do meu tempo.

  Estou alterando algumas quadras consoante vou recebendo informações sobre estas cantigas. O meu obrigado desde já ao amigo Manuel Lopes de Aver-o-Mar e ao meu irmão mais velho. As quadras recebidas que não cabem nesta lembrança farão parte de um outro tema.



Boas Festas!

4.12.08

Minha Mãe... Aurora!





  Mãe, o teu nome,... Aurora!

«Aurora tem um menino tão pequenino... ». Era a canção que muitas vezes cantavas quando eu era pequenino.

  Aqui estamos, a tua prole. Foto tirada na Póvoa para ser enviada para o Pai que lá longe, sozinho, te esperava, nos esperava, para dar um novo rumo à vida.

  Olha bem para nós, os mais velhos, de calçõezinhos pelos joelhos, camisola, camisa e meias, tudo igual.

  Cada filho nascido em sítios diferentes, sempre com a casa às costas conforme a prole ia aumentando.


  Trabalhavas para contribuir para o sustento que nessa época a vida não era de “Playstation” e cartões de crédito. Éramos felizes assim. Fazíamos os nosso brinquedos, brincávamos na rua, no Natal era um carrinho de folheta, uma carrocinha com um cavalito a puxar já era uma festa.

  Lembro-me de um Natal, teria aí perto de sete anos, que te vi mais a tia Glória na Junqueira e fiquei curioso em saber o que andavam ali a fazer as duas. Entraram numa loja de brinquedos e, espreitando, vi que estavas a comprar os brinquedos que eu e os meus manos tínhamos pedido. Pouca coisa, mas era com muita alegria que recebíamos na meia o nosso presente. Sabes uma coisa minha Mãe? Até esse dia eu pensava que era o Menino Jesus que trazia os brinquedos, era assim que me tinham ensinado. Que ingénuo eu era. O consumismo ainda não se tinha instalado no Mundo e, do Menino Jesus, passaram para o Pai Natal pois o saco dele era maior. Agora as crianças têm tudo e não ligam a nada.


"Aurora tem um menino
Mas tão pequenino
O pai quem será
É o Zé da Aroeira
Que vai prá Figueira
Mais tarde virá

No adro de São Vicente
Onde há tanta gente
Aurora não está
Cala-te Aurora não chores
Que o pai da criança
Mais tarde virá"


Não estás não Mãe, partiste de nós há dois anos!


4.11.08

Cinema Garrett



  Quinta-feira, dia de matiné no velho cinema Garrett. Tinha que ir, não podia deixar de ver o meu ídolo da época.

  Mas era também dia de aulas e não havia dinheiro. Quinze tostões custava o bilhete no 3º balcão e ter quinze tostões em 1960 não era fácil. Havia que arranjar forma de também não ir às aulas pois era filme a não perder.

  Nessa altura já os meus pais estavam em Luanda e nós vivíamos em casa dos nossos avós aguardando a hora de partir também para a terra das bananas (foi a primeira coisa que perguntei ao meu pai quando lá cheguei, se tinha bananas em casa e o meu pai disse que sim, até que enfim que ia provar as ditas cujas).

  Os tostões lá se arranjaram, a minha avó lá me deu 5 e as minhas tias o restante. Tinha o dinheiro mas ainda faltava sair das aulas para ir ver o filme. Não sei a razão mas penso que fiquei com uma dor de barriga tão grande que a professora sensibilizada com a tamanha aflição disse para eu ir para casa descansar.

  ... E ali no Cinema Garret, depois de subir as escadas laterais, com os miúdos todos numa algazarra tremenda, naqueles bancos corridos (quem ficasse na última fila já sabia que ia ficar todo «curvadinho» devido à inclinação do telhado) abriram-se as cortinas e ao som de uma voz cristalina vi o filme Joselito “O Pequeno Coronel”. Muitos outros filmes vi naquele velho Cinema, mas este ficou-me na memória pois todos nós na época, éramos uns pequenos coronéis no seu cavalo branco.


  Hoje, o Cinema Garrett necessita de obras de fundo para se recuperar do esquecimento a que foi votado durante anos.

  "Arranca quando tiver que arrancar", afirmou um responsável da Câmara sobre as obras prometidas. Espero é que quando arrancar, se arrancar, a demora não seja tanta que provoque a sua derrocada e que dum cinema que alegrou a pequenada no passado nada mais reste que uma imagem em postais da Póvoa de Varzim antiga.