6.12.08

Descalcinhos pela lama!...

  Lembro-me pouco dos dias de Natal passados na Póvoa. Sei que íamos à cangosta que ligava a Rua das Lavadeiras à Rua Rocha Peixoto, ficava precisamente atrás da Fúnebre onde moramos, recolher o musgo no muro da quinta para o presépio.

  Na Rua da Cordoaria, onde também moramos, conhecida pela Rua do “Cu Tapado” por não ter saída (hoje está aberta e faz ligação com o Bairro dos Pescadores), o musgo era recolhido da parede que tapava a rua ou íamos até às pedreiras.

  O Natal que mais me lembro foi na casa dos meus Avós na Rua António Silveira.

  O presépio era feito com os pastorinhos que, não sei como, nos vinha parar às mãos depois de ultrapassado o gradeamento do velho “Mercado David Alves”. As cestas de verga das vendeiras ficavam um pouco mais leves mas era por uma boa causa.


  Sentados no chão da entrada com uma toalha em cima de um cobertor, ali era comido o bacalhau, com batatinhas e couves a acompanhar, regadas com molho fervido, depois vinham as rabanadas de vinho, a aletria (eu era um “doido” por aletria), os figos, as nozes, os pinhões e as castanhas.


  Tudo que tinha que ser partido era partido com o que se tivesse à mão, ou com os socos (sandália de madeira), martelo, como o meu avô era sapateiro lá tinha que ter uma forma em ferro (tripé com forma que entrava dentro do calçado, onde se faziam os concertos, em cima dos joelhos), para se colocar as nozes e avelãs e zás!.. Lá ia martelada!


  Cortava-se o Bolo-Rei e era uma festa para quem apanhava o brinde. Quem apanhasse a fava já sabia que no ano seguinte seria ele pagar o Bolo-Rei. Nessa altura não havia a preocupação das crianças engolirem o brinde ou a fava (quando tínhamos brindes iguais, trocávamos por outros com os amigos). Hoje, as crianças estão superprotegidas e até esse prazer lhes retiraram.


  Depois com os pinhões jogávamos ao “Rapa”, pião com quatro faces, cada uma delas tinha uma letra: R (rapa), T (tira), P (põe) e D (deixa).


  Cada jogador colocava uma quantidade definida de pinhões e rodava-se o pião. Se saísse a letra R para cima, o jogador rapava (recolhia) os pinhões todos, se fosse o T tirava tantos pinhões quantos tinha colocado, com o P colocava tantos pinhões quantos tinha colocado de inicio, se era o D tinha que deixar tudo com estava.

  Mas o jogo que sempre me lembro de termos jogado, tanto na Póvoa como em Luanda, era ao Jogo do "Quino" (Loto). Ou a tostão ou a pinhão quando se fazia linha (quinar) era um recolher do monte que estava sempre dentro da caixa do jogo. Tinha-se sempre que conferir não fosse o que quinava ser duro de ouvido e marcar a mais um nº que não tinha saído. A última tirada era cartão cheio e o dinheiro ou o que fosse a dobrar. Eram horas a jogar ao "Quino".



  E assim se passava na maior das alegrias a Ceia de Natal. Cá fora, noite adentro, ouviam-se ferrinhos, rélas (reco-reco), castanholas, testos (tampas de panelas),... O que era aquilo? Eram grupos de rapazes que vinham de porta em porta cantar as “Cantigas ao Menino”:

«Descalcinhos pela lama
Vamos todos a Belém
Adorar o Deus Menino
Que Nossa Senhora tem.

Já está nascido
Já por nascer
Nossa Senhora
Nos pode valer»



... E mais algumas que não me lembro, e em cada porta onde paravam perguntavam:

«Ó da casa?! Vai ou não vai?»


  O meu avô dizia: - «Vai» - e ouvia-se logo cá fora o pessoal a bater nos ferrinhos e demais “instrumentos”. Abria-se a porta e oferecia-lhes nozes, pinhões, castanhas que era o que havia. Dinheiro como não abundava se se desse algum era uma festa, mas com ou sem dinheiro cantavam:

«Esta casa é alta, alta
Moradia para o nascente
Os senhores que moram dentro
São filhos de boa gente


Refrão (bis)

Glória no Céu e na Terra também
Já nasceu o Deus Menino
Filho da Virgem Mãe»


... E passavam à porta seguinte!

  Se o dono da casa nada dissesse, o grupo seguia sem em antes lhe cantar:

«Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto


... E para reforçar ainda mais o remoque!

Esta casa cheira a breu
Aqui mora algum judeu


e mais esta...

Esta casa é tão alta,
É forrada a papelão!
O senhor que nela mora,
É um grande comilão!


... E seguiam caminho terminando com:

Refrão (bis)

Glória no Céu e na Terra também
Já nasceu o Deus Menino
Filho da Virgem Mãe»


  Depois do Rapa, ou do Quino, nós, os mais miúdos, íamos dormir, mas dormíamos desassossegados pois queríamos que chegasse depressa a manhã para ver os brinquedos que estavam no sapatinho. Fosse um carro ou um avião de folheta, umas castanhas, nozes ou outra guloseima já ficávamos satisfeitos, o Menino Jesus não se tinha esquecido de nós.

  Hoje, na Consoada, à meia-noite, já está toda a garotada há espera da prenda. O Menino Jesus deu lugar ao Pai-Natal e assim o mercantilismo veio substituir o verdadeiro espirito natalício do meu tempo.

  No dia seguinte lá vinha a roupa-velha, que mais não era que os restos da Ceia anterior, tudo desfiadinho e regadinho com o molho fervido.


  Foi o último Natal, enquanto crianças, passado na Póvoa. No mês de Fevereiro do ano seguinte, três rapazes e uma rapariga (eu, os meus dois irmãos e a minha irmã mais velha) partíamos no barco “Quanza” rumo a Luanda, tinha eu nove anos!

  Nunca mais voltamos a ver os nossos Avós com vida. Mas esse último Natal ficou guardado na minha memória para o sempre!

P.S. - Os "Cantares" que aqui coloquei podem não serem estas as palavras exactas, mas passados tantos anos é-me impossível lembrar-me delas como eram. Pesquisei mas não vi referências nenhumas acerca destes «Cantares de Menino» do meu tempo.

  Estou alterando algumas quadras consoante vou recebendo informações sobre estas cantigas. O meu obrigado desde já ao amigo Manuel Lopes de Aver-o-Mar e ao meu irmão mais velho. As quadras recebidas que não cabem nesta lembrança farão parte de um outro tema.



Boas Festas!

4.12.08

Minha Mãe... Aurora!



  Mãe, o teu nome,... Aurora!

«Aurora tem um menino tão pequenino... ». Era a canção que muitas vezes cantavas quando eu era pequenino.

  Aqui estamos, a tua prole. Foto tirada na Póvoa para ser enviada para o Pai que lá longe, sozinho, te esperava, nos esperava, para dar um novo rumo à vida.

  Olha bem para nós, os mais velhos, de calçõezinhos pelos joelhos, camisola, camisa e meias, tudo igual.

  Cada filho nascido em sítios diferentes, sempre com a casa às costas conforme a prole ia aumentando.

  Trabalhavas para contribuir para o sustento que nessa época a vida não era de “Playstation” e cartões de crédito. Éramos felizes assim. Fazíamos os nosso brinquedos, brincávamos na rua, no Natal era um carrinho de folheta, uma carrocinha com um cavalito a puxar já era uma festa.

  Lembro-me de um Natal, teria aí perto de sete anos, que te vi mais a tia Glória na Junqueira e fiquei curioso em saber o que andavam ali a fazer as duas. Entraram numa loja de brinquedos e, espreitando, vi que estavas a comprar os brinquedos que eu e os meus manos tínhamos pedido. Pouca coisa, mas era com muita alegria que recebíamos na meia o nosso presente. Sabes uma coisa minha Mãe? Até esse dia eu pensava que era o Menino Jesus que trazia os brinquedos, era assim que me tinham ensinado. Que ingénuo eu era. O consumismo ainda não se tinha instalado no Mundo e, do Menino Jesus, passaram para o Pai Natal pois o saco dele era maior. Agora as crianças têm tudo e não ligam a nada.


"Aurora tem um menino
Mas tão pequenino
O pai quem será
É o Zé da Aroeira
Que vai prá Figueira
Mais tarde virá

No adro de São Vicente
Onde há tanta gente
Aurora não está
Cala-te Aurora não chores
Que o pai da criança
Mais tarde virá"


Não estás não Mãe, partiste de nós há dois anos!

4.11.08

Cinema Garrett



  Quinta-feira, dia de matiné no velho cinema Garrett. Tinha que ir, não podia deixar de ver o meu ídolo da época.

  Mas era também dia de aulas e não havia dinheiro. Quinze tostões custava o bilhete no 3º balcão e ter quinze tostões em 1960 não era fácil. Havia que arranjar forma de também não ir às aulas pois era filme a não perder.

  Nessa altura já os meus pais estavam em Luanda e nós vivíamos em casa dos nossos avós aguardando a hora de partir também para a terra das bananas (foi a primeira coisa que perguntei ao meu pai quando lá cheguei, se tinha bananas em casa e o meu pai disse que sim, até que enfim que ia provar as ditas cujas).

  Os tostões lá se arranjaram, a minha avó lá me deu 5 e as minhas tias o restante. Tinha o dinheiro mas ainda faltava sair das aulas para ir ver o filme. Não sei a razão mas penso que fiquei com uma dor de barriga tão grande que a professora sensibilizada com a tamanha aflição disse para eu ir para casa descansar.

  ... E ali no Cinema Garret, depois de subir as escadas laterais, com os miúdos todos numa algazarra tremenda, naqueles bancos corridos (quem ficasse na última fila já sabia que ia ficar todo «curvadinho» devido à inclinação do telhado) abriram-se as cortinas e ao som de uma voz cristalina vi o filme Joselito “O Pequeno Coronel”. Muitos outros filmes vi naquele velho Cinema, mas este ficou-me na memória pois todos nós na época, éramos uns pequenos coronéis no seu cavalo branco.


  Hoje, o Cinema Garrett necessita de obras de fundo para se recuperar do esquecimento a que foi votado durante anos.

  "Arranca quando tiver que arrancar", afirmou um responsável da Câmara sobre as obras prometidas. Espero é que quando arrancar, se arrancar, a demora não seja tanta que provoque a sua derrocada e que dum cinema que alegrou a pequenada no passado nada mais reste que uma imagem em postais da Póvoa de Varzim antiga.

16.8.08

Festas d'Assunção



  Destas festas dedicadas a Nª Sª de Assunção tenho algumas memórias de garoto pois, embora saído da Póvoa de Varzim com pouco mais de 9 anos, eram aquelas que mais me marcaram não só por ter nascido nesse dia, 15 de Agosto, mas também porque a Santa é a padroeira da gente do mar, dos pescadores poveiros e eu estava lá!

  Na minha antiga Póvoa, junto à antiga lota, era ver por ali os carroceis, as cadeirinhas e mais diversões, mas os «Robertos» eram a alegria da garotada, “Toma! toma! toma” e lá ia o boneco dar mais uma paulada na cabeça do outro boneco, ou do crocodilo que se vinha juntar à festa. Não faltava a tourada e era ver a rapaziada toda num “Olé! Olé!” sempre que o «Roberto» fintava os cornos do touro e depois lá ia o touro com mais umas pauladas na cabeça. E nós miúdos, batíamos palmas num delírio do bom vencer o mau nem que fosse à paulada.

  Agora vencem sempre os maus e quem leva a paulada somos nós. Adiante!



  Nesta época de veraneio e de festa não faltavam na Póvoa gente a ocupar as “barracas” na praia e a encher os passeios. Excursões eram muitas e lá chegavam das localidades o pessoal com os cestos e os garrafões e era vê-los dispersos no areal a comer e a beber, acompanhados com violões, acordeões e ferrinhos tocando as músicas tradicionais das suas regiões, emprestando à Vila (na época) um ar festivo.

  Na praia ia de “barraca” em “barraca” (saía numa pela lateral e já estava noutra ) quando o dia findava e as mesmas estavam vazias e, naquelas bolsas grandes, sempre haviam umas moeditas esquecidas que davam para, na Festa da Assunção, andar nos carroceis e comprar com os meus irmãos Jota e Alfa uma melancia que “devorávamos” na praia. Era nossa tradição comer melancia nesse dia.

  Um dos sítios de diversão que me lembro, era de uma tenda onde lá dentro todos os bonecos estavam em movimento, hoje não me lembro se por força motriz ou hidráulica. Ficava sempre instalada junto à fortaleza e aquilo era digno de se ver. Mais tarde vi algo parecido no Sobreiro perto de Mafra, na olaria do Mestre Franco.

  A Festa d’Assunção é da Irmandade de Nossa Senhora de Assunção sediada na Igreja da Lapa. O culto inicial, em 6 de Maio de 1761, foi dirigida à Nossa Senhora da Lapa para «amparo dos Homens do Mar» com os bens de alma que eram auxílios pecuniários aos seus associados em caso de doença, impossibilidade de trabalho, às viúvas e órfãos. Não havia família que não trouxesse o luto vestido, havia sempre um ente querido que tinha ficado naquele mar revolto. A lancha poveira era uma casca de noz perante a fúria do mar, mas a valentia do pescador tudo enfrentava. Não podia faltar era o pão lá em casa. Em 1792 a Irmandade da Lapa passou a designar-se de Nª Sª de Assunção.

  Havia sempre uma rede nas lanchas e um quarto nos barcos sardinheiros para a Senhora e, assim, de uma pequena festa com três andores passou-se a ter o que hoje vimos na Póvoa.

  A Igreja da Lapa toda engalanada, visitada por milhares de forasteiros a fim de fazerem as suas oferendas aos Santos da sua devoção.



  Os tapetes de flores (de há quatro anos para cá) na Rua 31 de Janeiro, desde a Igreja da Lapa à Filantrópica, por onde irá passar a Procissão.



  Os cavalos da GNR todos a preceito a abrir a procissão, a fanfarra, os andores vistosos, alguns eram tão pesados que anos mais tarde tiveram que retirar parte do gesso (das nuvens) para os tornar mais leves...



  ... e aquele momento alto, quando todos os andores estão virados para o mar e a Nª Sª da Assunção com os braços no ar a pedir a Seu Pai a protecção divina para a gente do mar, enquanto milhares de foguetes das traineiras engalanadas são lançados, com as sirenes a tocar em simultâneo fazem desta procissão festa única em Portugal.



  É assim este povo. É poveiro está tudo dito!


Fontes consultadas:

Portal Municipal Póvoa de Varzim

“O Poveiro” de A. Santos Graça.


Informações adicionais e Fotografia:

Meu irmão Alfa (obrigado mano)

Som:

Conjunto Típico Ala-Arriba – “Romaria de Assunção”

14.8.08

A “minha” Igreja



  Quem o título ler pensa que eu, marius70, tenho uma Igreja. Não, não tenho, embora a minha Avó materna dissesse que eu dava um belo padre!

  Nasci no Bairro Nova Sintra na Póvoa de Varzim. Já nascidos estavam a minha irmã São e o meu irmão Jota (leaoverde). Cada um dos seis filhos que a minha Mãe teve nasceram em casas e ruas diferentes, só o meu irmão mais novo é que nasceu no Hospital da Póvoa. A mim calhou-me nascer no Bairro Nova Sintra.

  Uma das coisas que a minha Mãe muito admirava é que eu dizia-lhe como era a casa onde nasci. Como era a entrada, onde ficavam os quartos, a cozinha e das vezes que eu olhava pela janela e via o céu azul e o campo à minha frente. A minha Mãe dizia que não podia ser pois teria na altura que saímos de lá perto de dois anos de idade. O meu Pai levou-me à casa onde nasci vinte anos depois e ali estava ela tal e qual (por fora) como eu descrevia à minha Mãe.



  Nascido na Nova Sintra, foi na Igreja Matriz baptizado. Esta Igreja não foi a primeira Igreja Matriz. A primeira Matriz da Póvoa foi a ermida da Mata, futura Igreja da Misericórdia no Largo das Dores. Como esta Matriz pertencia na época a Barcelos, os condenados e malfeitores da Póvoa refugiavam-se neste local, evitando, deste modo, a actuação das autoridades poveiras. Claro que isto não era muito católico e assim de acordo em acordo lá se conseguiu fixar a Matriz dentro do povoado.



  Com o passar do tempo e há sua degradação, esta Matriz foi demolida em 1910 tendo no seu lugar construída a actual Igreja da Misericórdia.

  Por o lugar da Matriz ser sítio ermo, “pouco seguro e temível por ser mata povoada por venenosos répteis…”, em meados do século XVIII, pensou-se em construir outro templo - a actual Matriz - a segunda Matriz da Póvoa.

Assentamento da 1ª pedra - 18 de Fevereiro de 1743;
Duração da obra -14 anos;
Bênção - dia de Reis 6 de Janeiro de 1757 (ainda não estava totalmente acabada);


  A Igreja Matriz é uma igreja barroca. São notáveis os seus retábulos, especialmente o da capela-mor, bastante rico, em estilo rococó.

  Um móvel da sacristia ostenta um largo conjunto de siglas poveiras, ali gravadas pelos pescadores quando se casavam, como forma a registar o evento.



  Para além do facto de ali ter sido baptizado, foi a 14 de Agosto de 1976 que nesta Igreja me casei com a mãe dos meus filhos. Faz hoje precisamente 32 anos. Beijinhos para ti mulher!

  Aqui casou também a minha irmã, no mesmo dia e na mesma hora! Beijinhos para ti mana Faty e um abraço cunhado Telo.

  Foi nesta mesma Igreja baptizados todos os meus filhos, os três primos mais velhos foram-no em simultâneo, esperamos que todos nascessem para esse efeito.

  A Igreja Matriz da Póvoa fica ligada para sempre àquilo que hoje sou. Nela fui baptizado, nela casei, nela foram baptizados os meus filhos.

É a “minha” Igreja!


Fontes consultadas:

Paróquia da Matriz
Wikipedia
Geocaching


  A festa dos casórios decorria, deram as baladas da meia-noite. O meu irmão, leaoverde, manda parar o bailarico... E ali, já no dia 15 de Agosto, foram cantados os Parabéns ao noivo que fazia anos, eu Marius70.

Obrigado mano, nunca me esqueci disso!

22.7.08

A Minha Velha Escola

  Póvoa de Varzim, ano lectivo 60/61. O mar bramia, medonho, batia furioso no cais lançando espuma que não espraiava ali onde os barcos acostavam mas galgava a estrada, pela lota, levando tudo à sua frente.

As ruas Tenente Valadim, Dr. António Silveira até à Rua 31 de Janeiro eram um lago de mar e chuva que caía incessantemente. O ribombar, os clarões dos trovões e aquele mar doce/salgado não o impedia de conseguir o pretendido, ir à escola.

Com a sua malita de cartão, onde nela estava a "Sebenta", o aparo de “pena”, afiador, mata-borrão, a tabuada, os livros e demais apetrechos escolares, enfrentava a fúria dos elementos.

Com água pela cintura, molhado até aos ossos, a criança ia a pouco e pouco tentando chegar àquele lugar com um mastro, onde a bandeira portuguesa era içada todos os dias, as carteiras de madeira, o quadro negro, o mapa de Portugal com as Serras e Rios, a cruz e, como sempre, por cima do quadro, o retrato do ditador Salazar e do presidente Américo Tomás.

Quanto mais se afoitava no avanço mais tinha que levantar os braços, levando os livros à cabeça que nem Camões.

Exausto, com o frio a tolher-lhe os movimentos, entra na escola.

“Acorda” uma semana depois, com uma tosse persistente. O corpo franzino não aguentara, uma cicatriz na pleura persiste, lembrando-lhe esse momento de querer é poder e que, quando a vontade é enorme, não há nada que o impeça.

A minha velha Escola ainda está de pé. Há-de cair um dia e, no dia que cair, mais um pouco de mim cairá com ela.


(foto LeaoVerde)


  Os meus livros da 1ª à 3ª pois a 4ª classe já foi em Luanda e penso que o livro era diferente.

   

(oferta do meu irmão)

3.5.08

"Correr o Fado"



  Sentados, eu e os meus irmãos, ouvíamos estórias de espantar que os nossos pais ou avós nos contavam. Ou era o diabo que perante uma cruz, um espelho ou uma outra imagem sagrada explodia em nuvens de enxofre, ou almas penadas que vagueavam por algo que não tinham feito em vida, por promessas não cumpridas.

  Hoje, nos tempos modernos, essas histórias estão dissipadas, já ninguém diz às crianças para comerem a sopa senão vem o papão ou o homem do saco.

  Eram outros tempos em que a escuridão e a crendice dominavam o espírito das gentes humildes. Tudo o que acontecia de mal tinha uma razão de ser. E, assim, lá iam pagar uma promessa, ou usar os amuletos contra os maus olhados.

  Uma das estórias que me contaram e fazem parte das recordações da minha meninice era o de «Correr o Fado».

  Antigamente, diz a lenda, que os pais que tivessem sete rapazes ou sete raparigas todos seguidos, o mais velho tinha de ser padrinho do mais novo, se não o mais novo ia "correr o fado", ou seja, à meia-noite ele ou ela transformava-se num animal.

  O corredor durante a noite toda tinha que passar por sete pontes, sete fontes, sete montes, sete encruzilhadas, sete portelas de cão. Depois retornava ao local onde tinha deixado a roupa, metamorfoseava-se de novo ficando uma pessoa normal, vestia-se e ia para casa, deitava-se não se recordando de nada do que lhe tinha acontecido.

  Saber qual a roupa da pessoa que se queria quebrar o “fado”, apanhar essa roupa e perseguido pelos “animais” em fúria lançá-la para uma fogueira, previamente preparada, quebrava o encanto. Depois a pessoa batia à porta conforme tinha vindo ao mundo, e nunca mais voltava a correr o fado.

  Quando se encontra um para quebrar o fado deve-se fazer sangue, isto é, fazê-lo sangrar.

À criança e ao borracho
Põe Deus a mão por baixo


  Diziam que os corredores do fado não faziam nenhum mal aos bêbados. Contava o meu Avô que, numa noite, ia um bêbado perto da Fortaleza quando se lhe rodearam um grupo de animais. Este, pegando num ferro, espetou num olho do animal que mais perto se lhe chegou.

  Dias depois alguém lhe bate à porta. Era um grande empresário, com um olho cego, que lhe foi agradecer o facto de ao ter sido picado pelo ferro e ter feito sangue tinha-lhe quebrado o encantamento.

  Quem quisesse quebrar o fado de alguém, fazia um S. Selimão (estrela de cinco pontas, símbolo de protecção) e, dentro dele, tentava puxar com uma corda o animal que previamente tinha visto a pessoa tomar a forma. Os animais diversos (conforme o local onde se tinham espolinhado assumiam a forma desse animal; gato, cão, porco, cavalo ou outro qualquer) corriam em volta do S. Selimão e ele à 1ª oportunidade puxava-o logo para dentro do S. Selimão. A partir daí voltaria s ser uma pessoa normal podendo ser apanhado pela fúria dos outros mas perante a impossibilidade de o fazerem devido à sigla, partiam para correr o seu fado.



  O curioso disto é que o encontro era sempre junto à velha Fortaleza, e como eu morava bem perto é de imaginar como ficava sempre que por ali passava à noite.

  Hoje passeia-se até altas horas por esses lugares, mas atenção, se virem um animal perto de vocês à meia-noite desconfiem sempre, nunca se sabe se está ali um corredor de fado, se o picarem e o animal der um urro, já sabem, pernas para que vos quero!...

4.4.08

Santo André das Almas

Aqui e ali candeeiros de petróleo alumiavam a noite. Em horas tardias alguém deambulava pela então vila. Atrás de si um toc toc. Olha para trás nada vê. Estuga o passo mas o toc toc mantém-se cada vez mais perto. Pára por baixo de um candeeiro e eis, que a seu lado, aparece como vindo do nada um sujeito que lhe pede um cigarro.

Temeroso abre a cigarreira e pega num cigarro para lhe dar. Por momentos a figura do homem reflecte-se na cigarreira, ouve-se um estoiro, ele desaparece e um cheiro intenso a enxofre faz-se sentir. Era o demónio.

Santo André das Almas

Durante anos ouvi esta música sem saber a lenda que estava por detrás daquela ladainha. O som de lamúria cantada pelo Grupo Folclórico Poveiro adivinhava algo ligado a tradições dos pescadores poveiros.

Os pescadores acreditam que este Santo liberta as almas dos que se afogam no mar depois de um naufrágio. A Festa a este Santo é consagrada no dia 30 de Novembro. Na madrugada desse dia, homens e mulheres com lampiões, vão a pé pelo areal até a capelinha rezar a novena. Junto à capela há o Penedo do Santo que dizem ter a pegada do próprio Santo André.

Como Santo António também Santo André tem dotes de casamenteiro, as raparigas casadoiras levam uma pedrinha que atiram para o telhado da capelinha.

Vai pedra abençoada,
Para eu pró ano vir casada

Santo André uma pedrinha
Para eu pró ano vir casadinha

Se a pedrinha se mantém lá, é certo que a moça casa em breve e que no ano seguinte volta em romagem, já casada, se a pedrinha rola e cai do telhado, a esperança de casamento próximo desvanece. Há que tentar sempre, pode ser que na próxima a pedra fique presa e haja casório.

Esta é a lenda que não conhecia. Contada pelos meus ancestrais, a lenda tem outros contornos.

Em noite escura, grupos de homens e mulheres dirigiam-se para a pescaria. Ao atravessar uma ponte ouviam-se gargalhadas vindas do rio. Eram as bruxas que se banhavam nas suas águas (tinham hora marcada, era sempre à meia-noite).

E aqueles homens e mulheres habituados à fúria do mar, religiosos mas supersticiosos, de lampiões acesos, tremulentos, atravessavam a ponte tirando as fraldas das camisas para fora das calças (para afastarem os espíritos malignos) e cantavam:

Resgatai as almas,
Ó Pastor Eterno
Daquele lugar
Junto ao Inferno

E, assim, continuando a cantar, faziam com que as bruxas continuassem no seu banho e não lhes atormentasse a alma.


P.S. - Para confirmar esta versão indaguei se realmente em Aver-o-Mar existia uma ponte e um rio. A resposta foi afirmativa. Eis a explicação:

De facto essa ponte existe, mas, pela sua localização, nunca pôde ter servido para tal, visto estar sobre o Rio Esteiro, (hoje é mais um regato que outra coisa) na estrada municipal! Ora só era usada para se passar de Norte para Sul, quando o Mar enchia o Rio! Naturalmente que quem do norte ia para as praias do sul e vice-versa, tinha que a passar.

Obrigado Manuel!



A letra do Santo André das Almas cantada pelo Grupo Folclórico Poveiro

Resgatai as almas,
Ó Pastor Eterno
Daquele lugar
Junto ao Inferno

Alminhas da Moita,
Senhor do Calheiros,
Dai ao nosso barco
Quarenta milheiros

Santo André das almas,
Pedi ao Senhor
Que dê sardinhinha,
Pelo seu Amor.

Pelo sacrifício
Da sagrada Missa,
Não useis com elas
Da Vossa Justiça.

Resgatai as almas,
Ó Pastor Eterno,
Daquele lugar
Junto ao Inferno.

A nossa oração,
Senhor aceitai;
Os justos que sofrem,
Das penas livrai.




Os meus agradecimentos ao escritor José Azevedo que, para além de ter dado a indicação ao meu irmão que resultou certa de quem poderia ter a música do Santo André das Almas para fazer parte deste tema, prontificou-se a juntar o coro do Rancho da Lapa para cantar a ladaínha do Stº André e gravar-se a fim de ma enviar, ao responsável pelo Rancho Poveiro, Jacinto Sá, que emprestou o disco ao meu irmão para que, numa deslocação que fez nesta altura da Páscoa a Lisboa, eu o pudesse gravar, ao Manuel Lopes pelo envio da letra e imagens e pela informação adicional prestada. Para todos, especialmente para ti meu irmão, aquele abraço.

28.3.08

Procissão do Senhor Morto

  Era ali ao pé da Capela de S. Tiago que ainda há pouco anos, tanto eu, como toda a família, assistia à passagem da Procissão. Como pouco conhecedor das tradições poveiras era a minha Mãe que me chamava a atenção para este ou aquele pormenor entre eles o cantar do "Misere".

  A Procissão do Senhor Morto é organizada pela Irmandade da Misericórdia. Os irmãos com os seus balandraus (capas pretas de seda ou cetim), os farricocos, com os seus hábitos negros de capuz a cobrir a cara, os fogaréus, o ruído das matracas, conhecidas também por cabarnelas, as lanternas, o bater compassado das varas, o andar vagaroso e solene e, junto à Capela de S. Tiago, é cantado o "Misere" pelo grupo coral "Capela Marta" em homenagem ao seu fundador, Alberto Marta, fazem desta procissão um dos pontos altos da Semana Santa na Póvoa de Varzim.

  O andor do Senhor Morto é conduzido pelos clérigos mais novos.

  Aqui ficam algumas imagens da Procissão deste ano. Agradeço ao meu irmão e sobrinha o envio das mesmas.



26.3.08

O Jogo da Péla



  Como referi no tema anterior, o jogo da péla é um jogo tradicional poveiro. Consiste na formação de dois grupos com número igual de rapazes e raparigas. Os chefes de cada grupo começam a escolher e como cavalheiros que são começam pelas raparigas.

  Formadas as equipas, os que menos jogam são, como é óbvio, os últimos a serem escolhidos, mas, como sói dizer-se, os últimos são sempre os primeiros e é sempre por estes que o jogo começa. Se tiverem "azar" ficam logo eliminados à partida.

  Os chefes de cada grupo oferecem os pontos para os que ficam em cima a jogar e os que ficam em baixo a defender.

Daí a ladaínha que está no tema anterior:

- Dou-te um
- Dou-te dois
- Dou-te três
- Vou com os quatro para baixo

... E lá vão eles!



  Os de cima começa a pedir o primeiro ponto do el enquanto os de baixo quando vão para cima já levam os pontos que foram combinados à partida. Lançam a péla, se os de baixo a apanharem o que a lançou fica logo fora, se a péla cair ao chão, o mais destro dos de baixo tenta acertar na cachola, se o conseguir lá fica o jogador dos de cima de fora, se não acertar, conta o que joga um ponto para o seu grupo.

  Depois do Mirolho (o mesmo que vesgo, estrábico), o jogador que lança a bola verifica se há possibilidades do grupo de baixo não apanhar a péla e tenta enviá-la para o mais longe possível pelo ar. Claro que os de baixo estão dispersos para verem se conseguem apanhá-la antes da mesma cair ou então que fique o mais perto da cachola.

  As raparigas que estão perto da cachola quando os de baixo tentam acertar lá os vão “provocando” com: «Serrubica, a cachola tem uma bica» ou «Olha essa mão, que me não leve em vão»

  E conforme os grupos vão lançando lá vão dizendo:

«Primeiro!... Senhor do Cruzeiro!... Come a carne e deixa o carneiro!»
«Dois!... Pega na varinha e vai picar os bois!»
«Três!... Santa Inês! Nunca lhe dês senão uma vez!»
«Quatro!... Um bocado de pão bolorato!»
«Cinco!... Um brinco!»
«Seis!... Panela velha toca os reis!»
«Sete!... Um canivete que te espete!»
«Oito!... Um biscoito!»
«Nove!... Dá esmola ao pobre!»
«Dez!... Dança com os pés!»
«Onze!... Um bocado de pão de bronze!»
«Doze!... Acabar o él!»

  E aos gritos do nome de quem vai atirar à cachola lá vão dizendo, apontando para o desvio da dita, «Olha que por aqui e por ali também é caminho».

  Depois é uma algazarra quando os grupos se cruzam no mudar de lugar

  E assim os poveiros vão passando a tarde à espera do compasso. Hoje vêem-se grupos pequenos aqui e ali. Ainda joguei à péla há uns anos atrás na Rua dos Ferreiros com a minha tia, irmãos e primos.

  São estas tradições que se deveriam manter. Não vem nenhum mal ao mundo jogar à péla. Só os poveiros é que têm dentro deles a alma e o querer em serem Poveiros. Mesmo longe é grato saber que nunca a Póvoa é esquecida.

  É para eles e para ti Poveiro que estás aí na Póvoa de Varzim este meu Ala-Arriba!

Obra consultada: «O Poveiro» de A. Santos Graça

19.3.08

A Minha Páscoa



  Embora sendo a Póvoa de Varzim, "pertença" do Douro Litoral, tem na sua tradição tradições minhotos entre elas, nesta altura da Páscoa, o "compasso" que vai de porta em porta dar a notícia da ressurreição (penso que hoje é só quem o solicita) com uma cruz florida. Depois de beijar a cruz, há sempre algo de comer e beber na mesa, ou um envelope contendo algum dinheiro para ajudar a confraria.



As batinas dos padres na Páscoa

 A Confraria da Nossa S.rª da Lapa é verde e branco, a da Matriz é branco e vermelho e de São José é azul e amarelo... são da mesma cor dos bairros com que se celebram as festas do São Pedro no Verão e que portanto levam a algumas piadas bairristas engraçadas!

  Enquanto se espera pelo compasso, diferentes famílias competem na «Péla», o jogo tradicional poveiro, que consiste em lançar uma bola e o grupo que a apanhar tenta acertar na "cachola" que não é mais que um banco levantado. Cada grupo que acertar ganha pontos e, ao mudar, aquilo é um fartote de riso pois tentam enganar uns aos outros dizendo mais pontos do que têm na realidade.

  Muito joguei na Rua do Século, na rua Dr António Silveira nos meus tempos de menino.

- Dou-te um
- Dou-te dois
- Dou-te três
- Vou com os quatro para baixo.



  Os afilhados iam à casa dos padrinhos buscar o folar (no meu tempo era um pão-de-ló ou uma rosca que levávamos ao pescoço, caso fosse grande, ou enfiadas no braço) e assim se fazia a festa da Ressurreição do Senhor.



PROCISSÃO DO ENTERRO DO SENHOR

  Esta Procissão, também chamada Procissão do Senhor Morto, realiza-se na noite da Sexta-Feira anterior ao dia de Páscoa. Esta procissão era para mim um temor pois os Forricocos, com os capuz a cobrir a cara, os fogaréus, as matracas a rodar, aquele ar pesado da Procissão com as suas cores de preto e roxo, o tom fúnebre e silencioso cortado aqui e ali pelos cânticos pelos grupos corais faziam qualquer puto como eu, na época, não ficar lá muito “católico”.



  Na Pascoela (Segunda – Feira depois da Páscoa) era tradição fazerem um piquenique familiar em conjunto com outras famílias nas bouças e nos campos em Argivai. Nas cestas de verga da minha avó lá iam umas pataniscas, uns pastéis de bacalhau, um bom vinho para os mais velhos, uns pirolitos para os mais novos e assim se fazia o "Anjo" (a designação de "Anjo" veio do nome do campo onde tradicionalmente os poveiros faziam o piquenique em Argivai, e "Anjo" ficou para a posteridade).

  Bons velhos tempos, agora no sítio onde se fazia o "Anjo" está lá cimento e cada vez mais se afunda nos alicerces da construção, a tradição religiosa de um povo.

  O curioso disto é que os poveiros trabalham na Sexta-Feira Santa (feriado nacional) para terem a Segunda-Feira, trocam o sagrado pelo profano.

  Da última vez que estive na Póvoa a passar a Páscoa, o “Anjo” foi em Ofir, mas foram tantos os estragos causados no pinhal por quem não sabe viver em comunhão com a natureza que no ano seguinte foi proibido. Nesse ano fez tanto calor que até nas águas do mar de Ofir tomei banho.

  Em Luanda, a comunidade Poveira procurava manter as tradições e todos os anos lá íamos para o "nosso" Anjo. Na foto, embora não o pareça devido ao calor, lá estou eu (com o copo na mão), o meu primo Carlos e a família que não entrou nesta foto, a "picnicar" em mais um "Anjo".

10.3.08

Póvoa dos Anos 60 - Parte II

Mais um vídeo. Reparar no monumento dedicado ao Eça, quem foi que o ofereceu à então Vila da Póvoa de Varzim em 1951, um ano antes de eu nascer!



(Não se esqueçam de desligar o player que se encontra no lado direito - Ala Arriba - antes de clicar no play do vídeo, é que o vídeo tem som)

5.3.08

Póvoa de Varzim - Parte I

Póvoa dos Anos 60, a Póvoa dos meus tempos de criança. Por certo muitos irão recordar rostos e locais que ficaram na memória dos tempos idos. A imagem não é muito nítida mas por ela passaram, assim como por nós, muitos anos. Espero que gostem!



Ao meu amigo Manuel Lopes. Aí está uma referência a uma Casa de Frangos da tua linda terra Aver-o-Mar. Será que ainda existe?

(Não se esqueçam de desligar o player que se encontra no tema anterior antes de clicar no play do vídeo, é que o vídeo tem som)

2.3.08

Póvoa de Varzim



Poveirinhos! Meus velhos pescadores!
Na água quisera com vocês morar:
Trazer o grande gorro de três cores,
Mestre da lancha deixem-no passar!

Lanchas da Póvoa, que ides à sardinha,
Poveiros, que ides para vinte braças,
Sol-pôr entre pinhais…
Capelas onde o sol faz mortes, nas vidraças!
Onde estais?

António Nobre


 Varzim deriva do vocábulo romano-lusitano Euracini que, segundo o investigador Viriato Barbosa, era o senhor ou proprietário do solo em que hoje está situada, total ou parcialmente a Póvoa de Varzim.

 Devido a alterações linguísticas através do tempo, de Euracini se formou a palavra Varzim.



 A Póvoa começou a ser uma pequena enseada, com uma colina adjacente, no lugar onde hoje se encontra a Igreja Matriz. Aqui se desenvolveu um centro de pescarias que, de uma situação de relativa pobreza – em 1870, o bairro piscatório, com ruas de terra batida, era constituído por simples «casinholos de madeira de pinho», com leitos de bancos ou beliches, tendo a lareira como peça fundamental –, se veio a transformar nos inícios do século XX, na maior concentração de pescadores do norte.

 Em 1308, D. Dinis deu o foral à vila de Varazim de Juzaão.



 Adquiriu a categoria de município em 25 de Novembro de 1514, e a sua autonomia foi concretizada no reinado de D. João III, quando foram construídos os primitivos Paços do Concelho.

 Assim “nasceu” a minha Póvoa.

 Nasci no Bairro da Nova-Sintra. Calcorreei as ruas da Póvoa somente durante 9 anos.

 As memórias desse tempo, levei-as para terras de África. Lá, os poveiros, faziam das tradições levadas um ponto de honra e, todos os anos, ali estávamos a fazer o «Anjo», e muitos leilões se faziam para ajudar o clube da nossa terra.

 No Brasil, a comunidade poveira também é enorme e sei que, como nós em África, levaram a Póvoa dentro de si e muito dinheiro da emigração foi aplicado na construção civil. A partir de 1947, época do 1º plano de urbanização da vila, até 1965, data da construção do primeiro edifício de quatro pisos, assistiu-se ao crescimento urbano imparável da nossa Póvoa.

 Hoje a Póvoa é, sem sombra de dúvidas, uma cidade voltada para o futuro. As ruas andam esventradas? O trânsito está caótico? É o preço do desenvolvimento. Depois das obras feitas e do trânsito regularizado tudo será esquecido e a Póvoa será sempre aquela cidade que o Poveiro esteja onde estiver a terá no coração.

25.2.08

Como eu o recordo!...


Ora Biba a Pândega

  Como eu gostava daquele velhote. Ainda hoje o recordo, ali no antigo mercado da Póvoa, debruçado na sua banca cheia de palmilhas, cola, fio norte, sebo e o sapato na forma pronto para umas meias-solas.

  Como ainda me lembro quando ele ía até ao "Zé Trafulha" e deixava a loja entregue a uns miúdos que faziam patifarias na sua ausência como brincar aos cowboys e aos índios, amarrando os pulsos com esse fio danado e que, ainda hoje, marius70 tem uma recordação de um corte feito com essa faca afiadíssima com que ele cortava a sola, pois quando estava amarrado ao poste (era o cowboy) alguém gritou que o velhote vinha e zás lá vai pulso que o fio era rijo não fosse ele do norte. E ele nunca se esquecia daqueles miúdos e trazia a broa de sardinha que tão gostosa era e, de vez em quando, lá vinham uns pirolitos (antiga gasosa, hoje desaparecida que fazia as delícias da garotada).

  Como eu recordo daquela covinha no queixo e que, ainda hoje, tenho tendência em fazer uma covinha no meu para ficar igual ao dele.

  Como eu o recordo na "ilha" entre a Rua Dr. António Silveira e a do Cego do Maio, junto àquela mulher tão querida, com as suas saias até ao chão, que quando marius queimou um pé foi dela que recebeu o tratamento com uma agulha e linhas a furar as bolhas e deixar assim escoar a água nelas formadas.

  Como eu o recordo quando ele ia ao "Gato-Preto" comer o seu bacalhau e beber a boa pinga saída do barril.

  Como eu o recordo daquela vez que ia comigo e com o meu irmão, e nos deu uma lição de humildade ao fazer-nos sentir que nesse momento não era exemplo para ninguém quanto mais para nós, e só tinha um grãozinho na asa e nada mais.

  Como eu recordo este velhote que tanto gostava e ainda gosto esteja ele onde estiver, … o meu AVÔ BENJAMIM!


Era do lado esquerdo que o meu Avô tinha a loja, a seguir era um funileiro. No torreão, em baixo, tinha um «Pomar» onde muitos diospiros "fanei". Do lado dto havia um barbeiro onde, sentado numa tábua, muitas vezes cortei o cabelo.

19.2.08

O Poveiro

P.SérgioC. MaioP. Lagoa
            Patrão Sérgio                            Cego do Maio                        Patrão Lagoa


  Diz A. Santos Graça na sua obra «O Poveiro»: Na orla da angra ou enseada de Varzim vive o Poveiro, tipo de pescador original e inconfundível na beira-mar portuguesa.... Forte, rude, vive do mar e para o mar.

  Segundo o estudo feito pelo capitão Fonseca Cardoso «O Estudo Antropológico do Poveiro», o Poveiro descende da raça semita de origem cananeana, que viveu nas primeiras idades do Egipto, que fundou Tyro, Sidon, Aratos, Gavira, Carthago... enfim, somos aqueles que por herança nasce, vive e morre pescador.

  As velhas lanchas foram substituídas por barcos a motor. Os quebra-mar, impedem o avanço do mar que, quando se enfurecia, subia a velha praia num barulho medonho e, ao ai das pescadeiras, assisti em pequeno quando o barco poveiro se debatia contra a fúria daquelas vagas. Um pequeno salva-vidas fazia-se às ondas alternosas para resgatar aquelas vidas ao túmulo das águas profundas.

  O progresso não se compadece com o passado e, hoje, onde era a lota é um café, e ali foi erigida uma estátua a S.Pedro padroeiro da Póvoa de Varzim.

  Das antigas "Conserveiras" só existem as fachadas. O Pescador foi “empurrado” para as Caxinas e, na cidade cosmopolita sobranceira, resta somente uma homenagem àquele que tanto deu de si para salvar os outros... «O Cego do Maio».


  Quando ouço alguma canção da Póvoa, pareço ouvir a voz da minha mãe cantando com aquela voz que só uma poveira tem...


Torradinhas

Vamos ver a lancha nova
Que se vai deitar ao mar
Nossa Senhora vai dentro
Os anjinhos a remar




... para ti meu irmão que um dia me disseste!...

... E na leitura teu olhar vogará pelo espaço do tempo
Do teu tempo de criança e então sorrirás
E mil outras memórias despertarás
Das "cousas" que estavam no esquecimento

Se umas não viveste
Por tempo não te ter havido
Das mesmas te irás lembrar
Pois foi com elas que cresceste
Na memória do teu ouvido
De tanto delas alguém falar


15Ag99

... Um Ala-Arriba pela Póvoa

15.2.08

Ala-Arriba! «o Filme»

  Ala-Arriba! é um filme português do género drama-documental (docudrama) de José Leitão de Barros, que deu a conhecer ao país da década de 1940 a comunidade piscatória da Póvoa de Varzim com hábitos culturais muito próprios e antigos. É visto como um documento importante para a história da cidade da Póvoa de Varzim.

  Ala-Arriba! é uma expressão poveira que significa "força (para cima)", usada quando a comunidade puxava os barcos para a praia. A acompanhar o filme nas salas de cinema, por altura da sua estreia, era exibido o documentário Póvoa de Varzim. Este foi o primeiro filme português a obter um prémio internacional, neste caso a Taça Biennali de Veneza de 1942, dada a força dramática e plástica pouco vulgares.

  O argumento era do prestigiado dramaturgo Alfredo Cortez, baseando-se o autor na obra "O Poveiro" de António dos Santos Graça. É um retrato fiel de uma comunidade, interpretado não por actores, mas pescadores locais reais, logo mantendo o sotaque característico, sofrimento e vivências de uma Póvoa de Varzim como uma comunidade unida e fechada, mas desunida em diferentes castas sociais. A história centra-se à volta de um amor entre uma rapariga lanchã e um sardinheiro, a tragédia e vida marítima da Póvoa de Varzim e suas tradições.

Fonte:http://www.arikah.net/

O Documentário



P.S. - Devido à ausencia de som original no Documentário, coloquei músicas Poveiras em som de fundo.

O Filme



O filme está dividido em Cinco partes. Para ver a sequência seguinte clicar na imagem lateral correspondente.



Flash retirado de:http://www.povoadevarzim.com.pt/cinema.php

13.2.08

Ala-Arriba



Ala-Arriba - Rancho Folclórico Poveiro

  Os sinos anunciam a saída da Procissão. Com os braços abertos, Nossa Senhora de Assunção, em frente ao porto de pesca, ao som das sereias e dos foguetes lançados das traineiras engalanadas, abençoa aqueles que no mar têm o seu ganha-pão, ou o seu leito de morte.



  Muitos anos atrás saía também a Procissão. No ar, um vagido se ouviu, mais alguém tinha nascido. Pelas cangostas andou. No antigo mercado saltou para juntar mais uma peça ao presépio; uma ovelhinha, o Menino Jesus, a Nª Senhora, o pastor... enquanto seu avô colocava mais um par de solas e, a sua companheira de uma vida, deambulava de aldeia em aldeia vendendo o que o mar dava.



  Com a sacola ao ombro e a sua lousa traçava, com pau de giz, as primeiras letras, B, A =BA.. Pela janela via o céu azul, o campo sem fim. A chuva, miudinha, caía durante semanas.

  De calção lá ia para a praia onde, feito miúdo Adão, se atirava enquanto na «Boca-do-Lobo» o mar fazia um barulho dos "diabos" e, todo o cuidado era pouco não fosse alguém ser engolido por aquela "garganta" escancarada.



  As traineiras ondulavam ao sabor das ondas e os barcos, na areia, aguardavam a chegada dos pescadores para mais uma ida ao mar. As mulheres olhavam para os seus "Ómes" rezando com fé para que a faina corresse bem.

  "Ala-Arriba", gritavam as pescadeiras que, em conjunto com os homens, puxavam o barco com o pescado...



... que era logo ali dividido e comercializado na lota de pesca.



  Correrias, brincadeiras, ora com umas fisgadas bem “amandadas”, ora brincando de cowboys e de índios, uns jogos de bola junto à Fortaleza e, o polícia, mesmo ali a multar pois não se podia jogar descalço, no tempo em que uma sardinha alimentava quase uma família.



 O silvo de um barco atroou os ares, na amurada, as crianças viam o barco a desencostar do cais de embarque e a partir para o alto mar. No cais, lenços diziam adeus a quem partia...



 ... E, assim, se passaram horas, dias, anos!...

  Tocam os sinos, os foguetes estalejam... Vai sair a Procissão!

 Para a Poveira, minha mãe, um beijo do tamanho do mundo e desculpa ter-te feito "perder" a Festa da Assunção nesse ano!



 Ala-Arriba! é uma expressão poveira que significa "força (para cima)".