5.2.11

A minha Póvoa de Varzim


Nasci em 1952 nesta linda terra. Uma terra feita de um passado de sacrifícios, onde o nosso pescador, por vezes, tinha que "mendigar" o pão que o mar lhe negava, nos camponeses que viviam à volta do nosso povoado.

Um povo orgulhoso como o nosso não o fazia de ânimo leve, mas tinha que ser.

A Póvoa do meu tempo foi mudando. A Póvoa de hoje fará parte das fotos antigas do amanhã. Quando regressei à minha terra, após 13 anos de ausência, as diferenças ainda não eram muitas, mas já as havia. Hoje já nada tem a ver com esse passado, assim como esse meu passado nada tinha a ver com o passado dos meus avós. A Póvoa é uma cidade em crescendo. Muitas localidades em volta estão integradas em pleno na nossa Póvoa. Lembro-me de Aver-o-Mar que no meu tempo era bem distinta e hoje já não sei onde começa e onde acaba.

Mas é do passado que se faz o presente e o futuro da nossa terra. Um passado de que podemos orgulhar, fizémos de tão pouco uma cidade cosmopolita que, todos o sabemos, tem muito de bom mas tem também muito de mau. Mas é a nossa terra. Terra dos meus avós, dos meus pais, dos meus irmãos, de toda a minha família. Na Póvoa me casei, na Póvoa baptizei os meus filhos. Nasci no "Bairro de Nova Sintra", sou poveiro de corpo e alma.

Recebia muitos pps com imagens da nossa terra. Eram muito bonitos mas quase sempre faltava algo e esse algo levou-me a fazer este vídeo. Com música do grande amigo Rui Lagoa, aqui está a nossa Póvoa do passado. Tanta mudança houve mas sempre o grito dos nossos pescadores há-de vibrar no nosso peito: «Ala-Arriba» diziam eles e dizemos nós: «Ala-Arriba» por ti Póvoa. Que continues sempre a ser aquela terra que os nossos pescadores levaram para o Brasil e de lá foram expulsos por não negarem a terra e o país que os viu nascer.

19.11.10

A Ilha do Padre

Depois do nosso pai ter ido para Luanda, a minha mãe e todos nós, filhos, fomos morar para a Rua da Cordoaria, onde moravam já as nossas tias. Era uma casa cheia de garotada e não deveria ser fácil controlar tantos miúdos, mas certo é que até a nossa mãe ir para Luanda, com os dois manos mais novos, ali permanecemos.

Após a partida da nossa mãe, fomos para a casa dos nossos avós na “Ilha do Padre” que tinha entrada pela Rua Cego do Maio. Estivemos lá um ano, mas um ano que fez toda a nossa história de rapazinhos.

Do meu avô já aqui falei, Benjamim Lopes da Conceição, sapateiro no Mercado David Alves. Foi um avô que toda a gente gostaria de ter. Um grande amigo dos netos, um bom companheiro e amigo do seu amigo.

O amigo Ventura, eu e o meu Avô

A minha avó, Arminda Dias, era uma avó excepcional. Ia de aldeia em aldeia vender o peixinho fresquinho da Lota. Avós que nos deixaram saudades.


Um dia ao retirar uma panela de sopa do lume, ainda na Rua da Cordoaria (teria uns 8 anos), a panela virou-se e queimei o pé. Logo fugi de casa e coloquei-me em frente à entrada da Ilha do outro lado da Rua Cego do Maio (penso que havia aí um chafariz). A minha avó viu-me e chamou-me. Nunca me esqueci do que depois aconteceu. Não ralhou comigo. Tirou-me o sapato e o peito do meu pé era só bolhas de água. Foi buscar uma agulha e linha e passou a linha de um lado ao outro nas bolhas em cruz e deixou ali ficar. A água saiu, a pele secou e nunca mais vi marcas desse acidente.

Uma “ilha” como o nome indica, é um pátio em forma de U, cercado de habitações.

Nesta ilha, a entrada e saída era pela Rua Cego do Maio. A casa dos meus avós, tinha ligação para a Rua Dr. António Silveira (foto).

À entrada da Ilha morava a pescadeira Aurora, "A-dos-Assobios", mulher do que foi conhecido pelo "Ressuscitado". Depois havia a casa de banho comunitária, que não era mais que uma retrete com três buracos. Servia toda a Ilha. A seguir ficava a cozinha da minha avó, com o seu fogão a lenha. Já no virar do U a entrada para a casa dos meus avós. Em seguida penso que morava o dono (ausente no Brasil?) do casario e no andar por cima morou um padre (o tal que deu o nome à Ilha). À noite ouvíamos barulho vindo desse lugar diziam que era o espírito do padre que vinha até ali e arrastava a cadeira para ler. Até suávamos debaixo dos cobertores. Afinal eram ratos. Aquilo era tudo de madeira e já estava muito degradado.

Já no lado esquerdo, morava a nossa pequena amiga Rita. Um dia, no Carnaval, uma rabicha (bombinha ou bichas-de-rabear) entrou-lhe pelo peito e queimou-o. Foi uma aflição na Ilha. Quase na saída do pátio, lembro-me de uma moça que faleceu, creio que devido a apêndice. Como estava para se casar foi de vestido de noiva. Fiquei impressionado com a situação pois deve ter sido a primeira pessoa que vi morta com vestido de noiva. Parece que ainda estou a ver-me a subir as escadinhas que davam acesso a essa casa (tinha eu nessa altura 9 anos)

Nessa Ilha, na casa dos meus avós, passámos bons momentos e momentos assustadores. A luz do candeeiro a petróleo fazia com que a imaginação disparasse e algumas sombras tremulentas que pareciam passar ao fundo do corredor, faziam-nos estarrecer.

Na Rua Cego do Maio, saltávamos nas fogueiras dos Santos Populares, e assávamos as batatas. Era dali que partíamos para junto da lota e ouvíamos os pregões das pescadeiras na venda do peixe. Era dali que íamos até à praia para um mergulho ou ter com o amigo Xico Preu que nos levava até ao seu barco.

Foi um ano em cheio nessa Ilha do Padre da minha Póvoa de Varzim.

Quando lá voltei estava tudo degradado. Felizmente parece que a "ilha" hoje, em parte, foi recuperada.

Eu com o meu filho na entrada da casa dos meus Avós pela Rua Dr. António Silveira

23.3.10

Rancho Poveiro

Foi fundado em 1936 pelo etnógrafo António dos Santos Graça o mais representativo Grupo de cantares e dançares da nossa gente Poveira.

Se agora é conhecido por Rancho Poveiro foi com a designação de Grupo Folclórico Poveiro que se deu a conhecer por todo mundo, junto às nossas comunidades de emigrantes.


Os seus trajes são os usados pelos pescadores da Póvoa nos finais do século XIX, e neles predomina a “branqueta” (fazenda de lã branca) nas saias e nas calças e ainda a tão famosa camisola de lã branca, bordada a ponto de cruz com motivos marítimos, que as raparigas ofereciam aos namorados.


Este vídeo dedico a todos os Poveiros espalhados pelo mundo. Nele estão as canções que durante anos habituamos em as ouvir e fazem parte da nossa vivência enquanto miúdos, quando os nossos olhos eram o mar, e os pescadores lançavam à água as suas embarcações desafiando a fúria dos elementos.

É também dedicada a toda a minha Família, Poveirinha graças a Deus!

Bem-Hajas Rancho por continuares as nossas tradições no traje e na vontade de mostrares a todo o mundo o orgulho de ter nascido Poveiro.


Para todos, o meu Ala-Arriba pela Póvoa.

22.9.09

"À la Minuta"

«À tua memória Ti Manel, fotógrafo «à la minuta»


O meu Tio Manuel, era um dos fotógrafos que faziam do Passeio Alegre o seu poiso natural e ali tirava fotos «à la minuta» aos veraneantes. Ia muitas vezes até à Figueira da Foz e o seu calcorrear levou-o até às praias de Luanda onde era muito solicitado.

Foi sempre um homem com uma cultura acima da média e dele ouvia dizer que a Póvoa tinha 17 Igrejas e uma escola. Para bom entendedor meia-palavra basta. Muitas vezes o vi a tirar fotos no Passeio Alegre e a ele dedico este meu texto, pois fazia-me confusão na época, como é que ele metendo a cabeça dentro de um pano fazia surgir como magia pessoas impressas num papel. Este texto é como voltasse a ser essa criança e ver o meu Tio de novo junto à estátua do «Cego do Maio» a tirar uma fotografia «à la minuta».

  Na minha terra há lá umas pessoas que tiram umas fotografias às pessoas que lá vão passar o verão. É muito giro. Parece uma caixa de sabão e tem um pano preto num dos lados. As pessoas que tiram as fotografias colocam a cabeça dentro dela. Não sei a razão mas tenho a impressão que é para ver as pessoas de pernas para o ar... são uns marotos!

Ósdepois tiram a cabeça lá de dentro, olham para as pessoas e dizem: «Olhó passarinho»!

Uma vez vi uma cena muita gira, quando a pessoa que tira as fotografias disse «Olhó passarinho», o puto que ia ficar na fotografia começou a olhar à volta para ver onde estava o raio do passarinho e depois viu uma série deles com o tabefe que o pai lhe deu. Isso não se faz, bater assim nas crianças!

Depois a pessoa que tira fotografias, tira de lá de dentro uma cartolina branca com as pessoas brancas com cor preta, coloca a foto de pernas para o ar em frente à câmara e volta a dar um «click» numa coisa que tem na mão. Palavra que não percebo por que razão tem tanto trabalho, mas sou sapateiro no assunto.

Assim, quem os quiser ver, pode ir até ao Passeio Alegre na Póvoa de Varzim, onde, de vez em quando, aparecem ainda estes fotógrafos "à la minuta”. É um regalo verificar que a tradição ainda é o que era.


Foto: eu e a minha mulher tirada na minha terra em julho de 2005



09-05-2005

5.8.09

Os pequenos lobos do Mar

Morando na casa dos meus avós na “Ilha do Padre”, entre a Rua António Silveira e a do Cego do Maio, com o mar por tão perto, sempre que se podia, lá ia eu mais os meus irmãos, até ao porto de pesca para uns banhos naquelas águas enquanto ao lado as mulheres iam varando os barcos dos pescadores, os homens de cigarro ou cachimbo cozendo as redes, a garotada dando mergulhos numa algazarra própria da idade enquanto o argaço secava ao sol.

Foto da net

Naquele mar brincávamos com botes de folheta, no cais, quando a maré estava vaza, procurávamos pequenos peixes, lapas, caranguejos e pequenos polvos. A “Boca do Lobo”, que fazia a ligação entre o porto e a praia de banhos, era assustadora, mas nós éramos uns pequenos lobos do mar, embora ninguém da nossa família directa fosse pescador, só por casamento, fazíamos do mar o nosso poiso.

A arraia miúda poveira tinha o costume de se atirar ao mar completamente nus. Depois deitavam-se na praia, aconchegavam ao peito a areia e ali ficavam aquecendo ao sol os corpos.

Foto Studio (autor David Augusto Fernandes)

Um dia, mais uma vez, vou com os meus irmãos até à praia. Lá chegados há que retirar a roupa, primeiro os calções, a camisa e mais junto ao mar o resto, e ala um mergulho no mar.

Naquela época usávamos cuecas de pano cru, bem ásperas, com dois botões para a apertar (muitas vezes esses botões lá iam no jogo da “pincha” (botão), mas isso são outras histórias).

Aconteceu é que mergulho atrás de mergulho, correrias e brincadeiras, quando chegou a hora de virmos embora a minha cueca tinha desaparecido. De tão perto da água ficara que uma onda mais afoita levou-a.

A minha aflição foi como explicar isto à minha avó. Iria lá acreditar que o mar a tinha “engolido”!...

Tantos anos passados, não me lembro da reacção dela, mas se não me lembro é porque a minha avó acreditou na história, e com os meus irmãos a apoiar não iria duvidar. É que esses tempos eram de parcas posses, e umas cuecas, mesmo de pano cru, custavam dinheiro.

Os tempos de hoje são outros, não sei se os pequenos lobos do mar ainda tomam banho nus naquela praia do porto de pesca. Se sim, que um deles dê um mergulho por mim como se o hoje fosse ontem!

Fotos da net, montagem Marius70

Ala-Arriba pela Póvoa!