4.11.18

Revista "Occidente" - 27 de fevereiro de 1892

Toda a tragédia ocorrida no dia 27 de fevereiro de 1892, na Revista "Occidente" de 11 de março de 1892.

Neste naufrágio, morreram 105 pescadores.

Esta edição foi toda ela exclusiva não só à tragédia, como ao poveiro.


A atriz brasileira Cinira Polonia, referenciada no texto, como participante num recital para angariação de fundos para as famílias enlutadas

29.10.18

Cancioneiro Poveiro

"Um povo sem memória, é um povo sem história"


O cancioneiro Poveiro teria por força das circunstâncias, que ter o mar, a luta diária dos pescadores, a crendice, a fé e o amor, como mote principal. De uma simplicidade desarmante mas rica em pormenores, o nosso cancioneiro, é sem margem para dúvidas, um repertório de situações vividas pela gente do mar. No nosso folclore, essas quadras cantadas pelo nosso Rancho Poveiro estão lá evidenciadas, "Vamos ver a lancha nova" quando se pede a proteção da Senhora e dos anjos, "do mar que é casado, tem mulher, e bate nela quando quer", do "E um abraço, e um abracinho, ora aperta amor aperta" e tantos mais que fazem parte do nosso cancioneiro.

Lembro-me de quando os pescadores chegavam a terra diziam quando viam a mulher depois de longa ausência: "Ah "faneca"! e quem ouvia dizia para ela com um sorrisinho maroto: «Hoje o teu óme quer "combersa".

Nessa noite o cancioneiro seria mais:

"Deitei-me na tua cama,
Teu lindo rosto beijei;
Já logrei o que queria
Agora descansarei."

Outras mais:

Quero viver e morrer
Num apertado abraço;
Como nas ondas do mar,
Lá vive e morre o sargaço.

A vida do marinheiro,
É uma vida triste e dura,
Pois toda a vida trabalha,
Em cima da sepultura

Nas ondas do teu cabelo,
Vou-me deitar a afogar,
Para que o mundo saiba;
Que há ondas, sem ser do mar.


fontes consultadas: "O Poveiro" de Santos Graça e "Linguagem Popular e Cancioneiro Poveiro" de Júlio António Borges

... E aqui fica o último vídeo que gravei do nosso Rancho Poveiro.


27.10.18

Póvoa de Varzim em 1952

Encontrar um vídeo da minha terra do ano e do dia em que nasci (15 de agosto, dia da Nª Sª da Assunção que se vê nesta filmagem e encerra o filme) e, numa sorte incrível, o bairro onde nasci, o Bairro Nova Sintra é, sem dúvida, formidável.

Tudo o que o vídeo mostra faz parte dos meus tempos, pois foi neste ambiente que cresci. Depois a vila/cidade modernizou-se e, desta Póvoa, só restam estas lembranças.

26.10.18

O "Ressuscitado"

João dos Santos Pereira Marques e a sua mulher Aurora, A-dos-Assobios, morava na ilha onde morei durante um ano, a Ilha do Padre. A casa deles era do lado da Rua Cego do Maio, mesmo à entrada da Ilha. A Ilha fazia "ligação" com a Rua Dr. António Silveira pela casa do meu avô e da minha avó, Benjamim Lopes da Conceição e Arminda Dias, e da do tal padre que deu "nome" à ilha.

Ficou-lhe a alcunha de "ressuscitado" porque numa noite, a catraia onde ele seguia «Tememos a Noite», soçobrou durante uma tempestade. Três dias se passaram, todos os restantes pescadores foram dados como perdidos. Mas uma silhueta recortava-se no mar quando o barco do mestre Zé Alardo estava no mar. O filho viu uma bóia a bombordo, perdida, «Mude de rumo - disse ele ao pai - que há ali qualquer coisa.» Era o João Caramelho.

O corpo estava carcomido pelos peixes e caranguejos. Com o corpo em chagas e com uma multidão na praia aguardava-os (avisados pelo Manco do Vermelho que tinha regressado antes), para verem tamanho "milagre" e tocarem no Ressuscitado. Este foi para a Casa dos Pescadores, onde permaneceu algum tempo, regressando à Ilha do Padre, onde a minha querida avó acabou de o tratar e dando parte do que trazia das aldeias onde vendia o peixe, ajudava o casal na hora do infortúnio.

O João Caramelho, o "Ressuscitado", faleceu em fevereiro de 1972.

fontes consultadas. "Histórias do Mar da Póvoa" de José de Azevedo, e a minha irmã mais velha, São, que sempre viveu na Ilha do Padre com os meus avós.

foto: Associação Poveira de Colecionismo

Cegos papelistas

(isto faz parte da cultura de dois povos, o nosso e o da Galiza)

Já aqui tinha contado o que via quando, era ainda uma criança, na terra onde nasci. Uma senhora, cega, agarrada ao braço do seu companheiro, cantava canções de faca e alguidar, do homem que trocou a mulher por uma bicicleta, de uma criança com cara de cão, da mulher que arrancou o nariz do marido pois este era velho e, na noite de casamento, em vez de aquecer a moça, ficou-se "enrodilhado" com frio, a mãe que matou os três filhos à machadada; a costureira que descobriu que o noivo a enganava e se matou no dia do casamento; a Maria da Graça que foi enganada pelo Manuel Celestino e atirou o filho recém-nascido para o telhado; o coveiro de Pínzio que desenterrava os mortos para lhes tirar a roupa. Enfim era uma "desgraçadeira" para quem os ouvia que, puxando do lenço, fungavam o nariz, limpavam os olhos marejados e era nessa altura que os folhetos com as canções, se vendiam.

Ai povo povo, que o sal das tuas lágrimas, alimentavam aquelas almas que ali desfiavam o rosário das misérias populares.

Eram todos "cegos", eram os cegos papelistas.

"Vem de muito longe a memória dos cegos papelistas que, por mercados, feiras e romarias, apregoavam casos estranhos, sucessos inauditos, virtudes hagiográficas e relatos noticiosos, às vezes prognósticos e adivinhações. (...)

Os cegos papelistas do século XVIII vendiam as histórias impressas em folhetos de papel barato, com letra miúda de má qualidade, por vezes com umas quantas imagens a alimentar o fascínio das palavras que contavam histórias em versos de pé quebrado, (...) Os cegos cantores do século XX seguiam a mesma receita, com as letras das músicas e as fotografias das estrelas do momento à mistura."(...)

[Texto de José Alberto Ferreira publicado originalmente com o CD "Canções do Ceguinho", editado em Maio de 2003]


Fica aqui um vídeo, "Casório divertido", de César Prata que em 2003 fez uma recolha destes cantares do tempo dos nossos avós e os gravou.



Fotos de ceguinhos e folhetos: