
Naquele mar brincávamos com botes de folheta, no cais, quando a maré estava vaza, procurávamos pequenos peixes, lapas, caranguejos e pequenos polvos. A “Boca do Lobo”, que fazia a ligação entre o porto e a praia de banhos, era assustadora, mas nós éramos uns pequenos lobos do mar, embora ninguém da nossa família directa fosse pescador, só por casamento, fazíamos do mar o nosso poiso.
A arraia miúda poveira tinha o costume de se atirar ao mar completamente nus. Depois deitavam-se na praia, aconchegavam ao peito a areia e ali ficavam aquecendo ao sol os corpos.

Um dia, mais uma vez, vou com os meus irmãos até à praia. Lá chegados há que retirar a roupa, primeiro os calções, a camisa e mais junto ao mar o resto, e ala um mergulho no mar.
Naquela época usávamos cuecas de pano cru, bem ásperas, com dois botões para a apertar (muitas vezes esses botões lá iam no jogo da “pincha” (botão), mas isso são outras histórias).
Aconteceu é que mergulho atrás de mergulho, correrias e brincadeiras, quando chegou a hora de virmos embora a minha cueca tinha desaparecido. De tão perto da água ficara que uma onda mais afoita levou-a.
A minha aflição foi como explicar isto à minha avó. Iria lá acreditar que o mar a tinha “engolido”!...
Tantos anos passados, não me lembro da reacção dela, mas se não me lembro é porque a minha avó acreditou na história, e com os meus irmãos a apoiar não iria duvidar. É que esses tempos eram de parcas posses, e umas cuecas, mesmo de pano cru, custavam dinheiro.
Os tempos de hoje são outros, não sei se os pequenos lobos do mar ainda tomam banho nus naquela praia do porto de pesca. Se sim, que um deles dê um mergulho por mim como se o hoje fosse ontem!

Ala-Arriba pela Póvoa!