3.5.08

"Correr o Fado"



  Sentados, eu e os meus irmãos, ouvíamos estórias de espantar que os nossos pais ou avós nos contavam. Ou era o diabo que perante uma cruz, um espelho ou uma outra imagem sagrada explodia em nuvens de enxofre, ou almas penadas que vagueavam por algo que não tinham feito em vida, por promessas não cumpridas.

  Hoje, nos tempos modernos, essas histórias estão dissipadas, já ninguém diz às crianças para comerem a sopa senão vem o papão ou o homem do saco.

  Eram outros tempos em que a escuridão e a crendice dominavam o espírito das gentes humildes. Tudo o que acontecia de mal tinha uma razão de ser. E, assim, lá iam pagar uma promessa, ou usar os amuletos contra os maus olhados.

  Uma das estórias que me contaram e fazem parte das recordações da minha meninice era o de «Correr o Fado».

  Antigamente, diz a lenda, que os pais que tivessem sete rapazes ou sete raparigas todos seguidos, o mais velho tinha de ser padrinho do mais novo, se não o mais novo ia "correr o fado", ou seja, à meia-noite ele ou ela transformava-se num animal.

  O corredor durante a noite toda tinha que passar por sete pontes, sete fontes, sete montes, sete encruzilhadas, sete portelas de cão. Depois retornava ao local onde tinha deixado a roupa, metamorfoseava-se de novo ficando uma pessoa normal, vestia-se e ia para casa, deitava-se não se recordando de nada do que lhe tinha acontecido.

  Saber qual a roupa da pessoa que se queria quebrar o “fado”, apanhar essa roupa e perseguido pelos “animais” em fúria lançá-la para uma fogueira, previamente preparada, quebrava o encanto. Depois a pessoa batia à porta conforme tinha vindo ao mundo, e nunca mais voltava a correr o fado.

  Quando se encontra um para quebrar o fado deve-se fazer sangue, isto é, fazê-lo sangrar.

À criança e ao borracho
Põe Deus a mão por baixo


  Diziam que os corredores do fado não faziam nenhum mal aos bêbados. Contava o meu Avô que, numa noite, ia um bêbado perto da Fortaleza quando se lhe rodearam um grupo de animais. Este, pegando num ferro, espetou num olho do animal que mais perto se lhe chegou.

  Dias depois alguém lhe bate à porta. Era um grande empresário, com um olho cego, que lhe foi agradecer o facto de ao ter sido picado pelo ferro e ter feito sangue tinha-lhe quebrado o encantamento.

  Quem quisesse quebrar o fado de alguém, fazia um S. Selimão (estrela de cinco pontas, símbolo de protecção) e, dentro dele, tentava puxar com uma corda o animal que previamente tinha visto a pessoa tomar a forma. Os animais diversos (conforme o local onde se tinham espolinhado assumiam a forma desse animal; gato, cão, porco, cavalo ou outro qualquer) corriam em volta do S. Selimão e ele à 1ª oportunidade puxava-o logo para dentro do S. Selimão. A partir daí voltaria s ser uma pessoa normal podendo ser apanhado pela fúria dos outros mas perante a impossibilidade de o fazerem devido à sigla, partiam para correr o seu fado.



  O curioso disto é que o encontro era sempre junto à velha Fortaleza, e como eu morava bem perto é de imaginar como ficava sempre que por ali passava à noite.

  Hoje passeia-se até altas horas por esses lugares, mas atenção, se virem um animal perto de vocês à meia-noite desconfiem sempre, nunca se sabe se está ali um corredor de fado, se o picarem e o animal der um urro, já sabem, pernas para que vos quero!...